segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Enfeite de amarílis


Procurei ler algo corajoso que falasse sobre egoísmo, orgulho e inveja. A tentativa, uma desculpa para não ter que me expor tão nua ao ingrato exercício que cumpro agora. Dos pactos que firmo e não cumpro já não sei se vale suplicar para a crença divina. Melhor talvez inundar-me na frivolidade de sonhos perversos. Vãs. As palavras que disponho de qualquer jeito não cumprem a imundice do que precisavam expressar. A estupidez é tamanha que fico remoendo os pensamentos, numa punhetagem de ideias pronta para arremessar a verdade. Mas o desconforto do disfarce diário já cansou o espelho das vaidades que só enxerga o vão. E não deixou de ser narciso, apenas passou a queimar as açucenas e enfeitar-se de amarílis.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Em cárcere



Não é de hoje que ele fala por mim.


"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes suspostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo."

*Trecho retirado do confuso e envolvente Leite Derramado, de Chico Buarque.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Vigília


Peguei aquela taça de vinho pra ver se as palavras desciam. Nada.

Deitei no chão frio pra aspirar a poeira.

Esqueci – por um momento.

Digitei seu número 574 vezes.

...deixei a porta aberta.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Improvise


"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vida que andam juntas
Ninguém faz"
Mil perdões / Chico Buarque

Não espere. Nem um sorriso, nem um abraço. Nem um quilo de açúcar e meio de carne. Não espere amor ou mesmo carinho. Não espere na porta, nem com o vinho. Não abra a janela e me olhe saindo. Não me desvende, nem me descubra. Não me puxe a coberta, nem leia meus livros. Não me incomode, não faça barulho. Não me alimente, não deixe vestígios. Não se despeça e não peça mais nada. Não adormeça, não caia na sala. Não queira leite, nem salaminho. Não queime o cigarro no nosso ninho. Não diga mais nada. Não me cubra de pontos. Não me deixe engasgada, não sonhe comigo. Não me conheça. Não queira alento. Não me obedeça. Não espere mais nada. Improvise uma desculpa qualquer e volte pra casa.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Consagrando a verdade


Descobri que minha obscessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.

*Trecho retirado do belíssimo Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez. Páginas 74 e 74.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Invasões


Espero que não se importe de eu te falar as coisas assim tão depressa, de colocar todos os meus planos na mesa e esperar uma resposta sua. Desculpe falar tanto de nós, quando você já está completo sem parte de mim em você, mas é que eu não aprendi a ser otimista. Espero que não se importe com minha memória fraca, que não me permite lembrar de coisas lindas que você se recordava há um tempo. Da música que tocava naquela noite, da primeira vez em que brigamos ou do dia em que quase fomos um do outro. Não se importe se eu invadir a sua vida com e-mails, poemas e textos que não te dizem muito, mas que é certo te machucam pela leitura. Encontrei uma foto velha e fiquei olhando para ver se o seu sorriso já mirava para mim, ou se suas pernas tendiam para o meu lado, se o seu olhar tinha um quê de paixão. Mas que nada! Uma foto inocente, apenas duas crianças sentadas. Apenas eu e você. Quando fiz uma seleção das coisas que não lembro mais...achei você em uma brincadeira daquelas de verdade ou consequência e seus amigos pedindo a nossa felicidade. Lembrei do reveillon que não tivemos. Daquela ideia do livro. Lembra? Iríamos escrever nossa história, veja só! Talvez só nossos filhos e aquele amigo mais próximo leriam a trama até o fim. Mas também pra quê, né? O fim eles também já saberiam. Talvez apenas nós leríamos a nossa história, você seria meu leitor eterno. E nessa leitura diária renovaríamos os contos, aumentaríamos os beijos, abraços e carícias, acrescentaríamos rivais, despiríamo-nos  mais... 
Desculpe te fazer ler tudo isso. É mesmo uma insistência minha querer sofrer e  me guiar por desvarios. Sei que já não adiantam mais cartas, livros, e-mails ou fotografias. Nada disso poderá reunir aquela história que começou antes mesmo que disséssemos  - Quer brincar comigo? Mas é bom que não você não saiba que me alimento em você todos os dias, depois que se despede e fico ainda com a janela aberta. É como se você estivesse vendo tudo o que faço, as músicas que escuto e o que passa em minha cabeça. Eu já te enchi de pedidos, de desculpas e de cartões de aniversário. Se ainda tiver algum, por favor, mande-me pelo correio ou scanea de uma vez e manda. Manda mesmo assim, não importa o meio. Não importa o fim.É só para acrescentar em um livro que um dia ainda vou escrever e me resguardar de que não inventei o personagem que faz par comigo.Não vou lhe cobrar direitos pela história e espero que faça o mesmo, deixe-me invadir em paz nosso passado e enfiá-lo nas páginas desse livro. Deixe de me dar desculpas, me repreenda, diga que não posso por fim a uma história que depende de você. Mostre-me que não escrevo só, que está comigo. Ou melhor, queime tudo cartas, presentes e aquela fotografia do seu mural. Mas saiba que de todo o brilho que mantenho nos olhos permito que uma faísca se manifeste, para a certeza da sua existência e não se esqueça que há sempre alguém torcendo para que tudo se queime, se acabe e aí sim, o fim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sonho afoito


Hoje eu te vi, dormindo e sem boné. Quase não acreditei, ah é, era um sonho. Você ali largado num sofá, tão belo. Aquele seu jeito de moleque largado, tranquilo. Não me contive, num lance me joguei aos seus pés (e pernas) e acordei-o. Assustado, olhou-me, porém, com afeto. E eu, eufórica, atrapalhei aquele momento de olhares e atropelei-o com explicações. Inúmeras, vãs, mas que pra mim faziam todo sentido e seriam motivo de uma longa briga, em que você me cobraria mil coisas. Você me conhece...
Me puxou para cima do seu sofá, não disse absolutamente nada e me abraçou com seus braços e sorrisos. Não consegui me desvencilhar de seu toque, aquele cheiro de quem dormia a tarde inteira, do afagos plenos, dos deslizes que nos divertiam sempre.
Precisei conter meu envolvimento, você já espera por isso, e não me esperou nem me levantar...já estava longe, na sua cidade conturbada, no metrô, nas avenidas. Quando despertei olhei pela janela e vi as montanhas ali, paradas como sempre. Me protegendo, como sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Da velha infância...


O que dizer sobre os meus pensamentos longínquos e constantes em um lugar não tão distante assim. Do tipo “quando alguma coisa acontece no meu coração...”.
E não é apenas Caetano que me inspira, mas algo que vem de longe, lá de longe.
Dos tempos das brincadeiras de menina, das visitas à família nos finais de semana, das risadas e fotos, dos cartões de aniversário. Das piadinhas pela janelinha nos dentes, das chateações típicas da idade. Da amizade. Do reencontro, da descoberta de um novo sentimento, dos encontros, dos bancos da escola, das festas, das cartas e textos, das músicas e da nossa Velha Infância.
Um turbilhão de emoções e sentimentos, que por muito tempo incompreendido fez de nós pessoas opostas - ou não. Buscamos a nós mesmos por diversas vezes e a sua prepotência (ou talvez, nossa) fez com que ano, após ano criássemos uma distância astronômica entre nós.
Eis que um dia, porém, o contato é refeito, as novidades compartilhadas, os sonhos ditos e muita, muita coisa ficara incompreendida, posta no ar. Sutilezas de vírgulas, reticências vãs que por si só já diziam muito. De nós. Dois opostos de uma infância em comum. Duas faces avessas do mesmo vestido dourado. São peculiaridades fatais que abrem abismos entre mim e você. E o presente pode construir uma ponte gigante. Pode unir-nos pra sempre, talvez. O fato de pensar assim não me mata, não me dói. Não por acaso muitos poetas e cantores já diziam: um nó na garganta e um aperto no peito. Os pensamentos invadem, não pedem mais licença, estão loucos, desvairados. A angústia profunda das recordações em cores reprisa diariamente o mesmo filme. Próximo do fim tudo desbota e volto para a minha realidade em branco e preto. Invadida pelas emoções antes contidas, desespero-me para escrever todos esses incômodos - que me assaltaram nos elevadores, becos e curvas. Que tomaram meu prazer pelas pequenas coisas. E fizera de mim uma pedinte, carente e solitária.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ponte aérea


"Mas não, mas não. O sonho é meu e eu sonho que deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores"

Enriquez/ Bardotti /Chico Buarque



Mas é que eu moro aqui e não lá. Nunca pedi licença do trabalho e embarquei de vez. A viagem poderia não compensar, e eu moro aqui e não lá. Arriscar poderia ser um tiro no pé ou um acerto no coração. Sem volta, sem passagem. Fico aqui, porque lá a cidade é cinzenta e fala alto. Aqui as montanhas me protegem do caos, da poluição e dos meninos maus. Lá tudo seria um risco, inclusive nós. Reviver infâncias, rever fotografias são para os saudosistas e não para nós. Temos planos e planos. Cada um em sua cidade ideal, tentando fazer sua glória, seu caminho. Mas eu moro aqui, onde o trem passa e eu não vejo, onde o pão-de-queijo é só de padaria, onde não tem desconfiança que não seja nata e não há insegurança que não seja plena. No seu mundo metrópole, cada cara no mano a mano faz um trampo pra viver. E uma distância de tempos, destinos e vidas faz com que eu more aqui e não lá.

segunda-feira, 30 de março de 2009

The truth is a lie (?)!




"So, you want to play truth or dare with a guy like me."


Minor Majority




Uma epígrafe como esta insita a curiosidade feminina e desmarcara uma cruel realidade: a de que a verdade pura, aliás, a verdade, qualquer que seja ela, como seja, ou melhor, como não seja, simplesmente não existe. Há apenas pessoas que provocam as outras com a promessa do pote de ouro e o soro da verdade.




terça-feira, 17 de março de 2009

Monografando


Agora a minha vida é falar sobre monografia. Em casa, no namoro, com a família, no bar com os amigos...enfim tornei-me a típica menina chata que só fala em monografia. Outro dia, estava em uma orientação metodológica quando decidi comer alguma coisa. Daí fui até dois amigos, a C. e o W. e emendei uma conversa que para minha surpresa e conforto me fez perceber que não sou a única que só penso em mono, ou melhor, descobri que eu ainda tenho hábitos de pessoas normais. (UFA!)

Eu.:- E aí gente, só eu que estou perdida ou vocês também estão com essa coisa de TCC?
C.: - Nossa a cada orientação, estou mais desorientada!
W.: - Tá foda! Essa coisa de justificativa, hipótese...(argh!)
Eu.: - Não, o pior é que sinto muita falta de leitura mesmo, sabe? Gente, num tem jeito de escrever sem ter uma boa base teórica, mas aí que tá. Quando vou ler? Dentro do ônibus não dá pra concentrar direito...
W.: - É verdade. E a gente sente assim uma necessidade de se alimentar de...

(interrompendo meu amigo W.)

Eu.: - Nossa, não é?!!! Vamô lanchar, então?
W. e C. caem no riso, enquanto eu fico sem entender.
(?)
W.: - Não, Ana. Tô falando de alimentar a mente, o intelecto.
Eu.: - Ahhh...desculpa, gente uai...é porque eu tô com fome! Vou ali comprar um pão de queijo e já volto.



É claro que não voltei, me senti a pessoa mais fominha do mundo...heheh! Mas que foi engraçado, foi. Pelo menos na hora (como diria aquela comunidade do Orkut). E fez com que eu percebesse o meu grau de normalidade ( e de lerdeza também).


sexta-feira, 6 de março de 2009

Pelos rascunhos

Eu te liguei ontem, mas a música estava muito alta no meu quarto e o pessoal não quis calar a boca. Pensei que você ficaria puta comigo e nem me mandasse aquela mensagem. Que bom! Que bom você não ser tão previsível como todos os outros. Bom também foi ouvir você irritada por não entender nada do que eu falava e gritar que ia desligar na minha cara. No fim da noite o pessoal foi embora, afinal quinta-feira não era dia de ninguém querer morrer de beber na casa dos outros. Tá certo, eram meus amigos e eu adoro recebê-los...
Mas talvez se você tivesse aparecido eu nem teria notado que dia era, em que mês estávamos ou se ainda tinha comida. Você me cobraria a cerveja gelada e eu te deixaria sozinha apenas para buscar outra. Ainda que a casa estivesse cheia, iria num pulo da varanda à cozinha para não deixar que um qualquer emendasse uma resenha contigo. Não seria ciúmes, só cuidado, carinho. Ok, ok. Você tem outras pessoas...mas e daí? Eu também tenho e quero estar sempre do seu lado pra que nenhum se meta com você (o trocadilho é por sua conta). O que eu não consegui fazer foi não sentir sua falta a cada lúdica música ou mesmo as francesas. Ou de fazermos mil textos rascunhados no banheiro e rir, rir, rir muito daquilo tudo. Descer as escadas com pressa, com medo, com vontade de parar e continuar nos olhando pra entender o porquê das coisas. Mas o que interessa é que hoje chegou e que vou poder te ver mais e mais. Rir dos seus acessórios, conversar sobre peculiaridades nossas e ser, novamente, só eu e você.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Entre as (des)cobertas



De repente você descobre que corpus não é apenas o nome de um iogurte e que é bom olhar a altura da água no bebedouro, evita constrangimentos. Na verdade, se fizermos valer o nosso dia aprenderemos em todos eles. Descobri, por exemplo, que estou cansada dos mesmos textos de sempre, das temáticas que sempre voltam, da postura assumida pela mídia...dos post's do Twitter e das falácias das pessoas. Cansei das calças jeans que apertam minhas coxas e sufocam meu corpo. Quero diversos vestidos para deixar-me incoberta, mesmo que pela metade, e aliviar o calor. Quero descobrir-me e descobrir as coisas acobertadas. Quero botar a boca no mundo, com livros e ideias e muita vontade. Ação também, é claro. Que fique claro que meu cansaço, não é de entrega, apenas de desabafo.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Chegada


Um ensaio sem o quê de rascunho, um ensaio simples. O espetáculo, o meio e o fim. Não tem início porque nada começou aqui, agora. Venho de longe e trago uma bagagem cheia de coisas e proposições. Na nècessaire deve ter alguns argumentos, que vez ou outra deixarei aqui. Na bolsa carrego chumbo, coisas de quem faz de casa sua cidade-dormitória. Nos bolsos, moeda de troco e aquele papel de bala velho. Venho satisfeita, embora incomodada com a fome das descobertas e a sede de verdade. Entre tantas portas, paredes e mundos uma coisa é certa: não serei poetisa. Nem aqui nem em lugar nenhum. Quero mesmo é fazer algo que me satisfaça por inteiro. Entre tantas malas e questões, entre tantos papéis e pensamentos...entre eu e você, nós e outras coisas há inúmeros segredos e apenas uma destino real e certo: a morte.