quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Propriedade

A agitação do seu sangue ao toque das minhas mãos me coloca em um estágio de excitação, como se me impedissem de andar descalça ou de recortar sistematicamente todas as propagandas de climatizadores de ar. Não há incômodo em dizer que a sensação não é de amor, nem de afeto. Apenas o egoísmo clássico que você anuncia em todas as discussões que por hora tivemos. Mas essa excitação focaliza todos os quatro sentidos num único propósito de te aprisionar. É aí que ensaio todo o planejamento para montar uma cela personalizada para o seu tamanho, em composição de vidro e com um sistema de vedação biométrico. As alterações que o toque em você me causam não são puramente orgânicas, causam um mal físico e individualizado. Não estou convencida se essa excitação provoca um comportamento venenoso ou, se é apenas uma alteração de humor passageira. Se pelo menos o seu gosto não me entorpecesse, eu poderia simplesmente abandonar a minha fixação por climatizadores de ar e desistir do sistema in vitro. A parte positiva do procedimento é que nenhum ser estranho poderia invadir seu corpo, afinal, apenas o meu toque romperia o sistema de vigilância. Porém, nem assim eu me daria por satisfeita. Reforço, a sensação não é de afeto, mas puramente de um prazer peculiar que só é aflorado com a observação da sua respiração seca, do seu olhar mudo e de sua rebeldia. Eu não oculto essa vontade primitiva de te consagrar como minha exclusividade. Queria mesmo era cravar meu nome em cima da sua alma e tornar legítimo dizer que você é sim propriedade minha. 

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Enfeite de amarílis


Procurei ler algo corajoso que falasse sobre egoísmo, orgulho e inveja. A tentativa, uma desculpa para não ter que me expor tão nua ao ingrato exercício que cumpro agora. Dos pactos que firmo e não cumpro já não sei se vale suplicar para a crença divina. Melhor talvez inundar-me na frivolidade de sonhos perversos. Vãs. As palavras que disponho de qualquer jeito não cumprem a imundice do que precisavam expressar. A estupidez é tamanha que fico remoendo os pensamentos, numa punhetagem de ideias pronta para arremessar a verdade. Mas o desconforto do disfarce diário já cansou o espelho das vaidades que só enxerga o vão. E não deixou de ser narciso, apenas passou a queimar as açucenas e enfeitar-se de amarílis.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Em cárcere



Não é de hoje que ele fala por mim.


"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta. O ciúme é então a espécie mais introvertida das invejas, e mordendo-se todo, põe nos outros a culpa da sua feiura. Sabendo-se desprezível, apresenta-se com nomes suspostos, e como exemplo cito a minha pobre avó, que conhecia seu ciúme como reumatismo."

*Trecho retirado do confuso e envolvente Leite Derramado, de Chico Buarque.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Vigília


Peguei aquela taça de vinho pra ver se as palavras desciam. Nada.

Deitei no chão frio pra aspirar a poeira.

Esqueci – por um momento.

Digitei seu número 574 vezes.

...deixei a porta aberta.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Improvise

"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vida que andam juntas
Ninguém faz"
Mil perdões / Chico Buarque

Não espere. Nem um sorisso, nem um abraço. Nem um quilo de açúcar e meio de carne. Não espere amor ou mesmo carinho. Não espere na porta, nem com o vinho. Não abra a janela e me olhe saindo. Não me desvende, nem me descubra. Não me puxe a coberta, nem leia meus livros. Não me incomode, não faça barulho. Não me alimente, não deixe vestígios. Não se despeça e não peça mais nada. Não adormeça, não caia na sala. Não queira leite, nem salaminho. Não queime o cigarro no nosso ninho. Não diga mais nada. Não me cubra de pontos. Não me deixe engasgada, não sonhe comigo. Não me conheça. Não queira alento. Não me obedeça. Não espere mais nada. Improvise uma desculpa qualquer e volte pra casa.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Consagrando a verdade


Descobri que minha obscessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.

*Trecho retirado do belíssimo Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez. Páginas 74 e 74.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Invasões


Espero que não se importe de eu te falar as coisas assim tão depressa, de colocar todos os meus planos na mesa e esperar uma resposta sua. Desculpe falar tanto de nós, quando você já está completo sem parte de mim em você, mas é que eu não aprendi a ser otimista. Espero que não se importe com minha memória fraca, que não me permite lembrar de coisas lindas que você se recordava há um tempo. Da música que tocava naquela noite, da primeira vez em que brigamos ou do dia em que quase fomos um do outro. Não se importe se eu invadir a sua vida com e-mails, poemas e textos que não te dizem muito, mas que é certo te machucam pela leitura. Encontrei uma foto velha e fiquei olhando para ver se o seu sorriso já mirava para mim, ou se suas pernas tendiam para o meu lado, se o seu olhar tinha um quê de paixão. Mas que nada! Uma foto inocente, apenas duas crianças sentadas. Apenas eu e você. Quando fiz uma seleção das coisas que não lembro mais...achei você em uma brincadeira daquelas de verdade ou consequência e seus amigos pedindo a nossa felicidade. Lembrei do reveillon que não tivemos. Daquela ideia do livro. Lembra? Iríamos escrever nossa história, veja só! Talvez só nossos filhos e aquele amigo mais próximo leriam a trama até o fim. Mas também pra quê, né? O fim eles também já saberiam. Talvez apenas nós leríamos a nossa história, você seria meu leitor eterno. E nessa leitura diária renovaríamos os contos, aumentaríamos os beijos, abraços e carícias, acrescentaríamos rivais, despiríamo-nos  mais... 
Desculpe te fazer ler tudo isso. É mesmo uma insistência minha querer sofrer e  me guiar por desvarios. Sei que já não adiantam mais cartas, livros, e-mails ou fotografias. Nada disso poderá reunir aquela história que começou antes mesmo que disséssemos  - Quer brincar comigo? Mas é bom que não você não saiba que me alimento em você todos os dias, depois que se despede e fico ainda com a janela aberta. É como se você estivesse vendo tudo o que faço, as músicas que escuto e o que passa em minha cabeça. Eu já te enchi de pedidos, de desculpas e de cartões de aniversário. Se ainda tiver algum, por favor, mande-me pelo correio ou scanea de uma vez e manda. Manda mesmo assim, não importa o meio. Não importa o fim.É só para acrescentar em um livro que um dia ainda vou escrever e me resguardar de que não inventei o personagem que faz par comigo.Não vou lhe cobrar direitos pela história e espero que faça o mesmo, deixe-me invadir em paz nosso passado e enfiá-lo nas páginas desse livro. Deixe de me dar desculpas, me repreenda, diga que não posso por fim a uma história que depende de você. Mostre-me que não escrevo só, que está comigo. Ou melhor, queime tudo cartas, presentes e aquela fotografia do seu mural. Mas saiba que de todo o brilho que mantenho nos olhos permito que uma faísca se manifeste, para a certeza da sua existência e não se esqueça que há sempre alguém torcendo para que tudo se queime, se acabe e aí sim, o fim.