sexta-feira, 29 de maio de 2009

Invasões


Espero que não se importe de eu te falar as coisas assim tão depressa, de colocar todos os meus planos na mesa e esperar uma resposta sua. Desculpe falar tanto de nós, quando você já está completo sem parte de mim em você, mas é que eu não aprendi a ser otimista. Espero que não se importe com minha memória fraca, que não me permite lembrar de coisas lindas que você se recordava há um tempo. Da música que tocava naquela noite, da primeira vez em que brigamos ou do dia em que quase fomos um do outro. Não se importe se eu invadir a sua vida com e-mails, poemas e textos que não te dizem muito, mas que é certo te machucam pela leitura. Encontrei uma foto velha e fiquei olhando para ver se o seu sorriso já mirava para mim, ou se suas pernas tendiam para o meu lado, se o seu olhar tinha um quê de paixão. Mas que nada! Uma foto inocente, apenas duas crianças sentadas. Apenas eu e você. Quando fiz uma seleção das coisas que não lembro mais...achei você em uma brincadeira daquelas de verdade ou consequência e seus amigos pedindo a nossa felicidade. Lembrei do reveillon que não tivemos. Daquela ideia do livro. Lembra? Iríamos escrever nossa história, veja só! Talvez só nossos filhos e aquele amigo mais próximo leriam a trama até o fim. Mas também pra quê, né? O fim eles também já saberiam. Talvez apenas nós leríamos a nossa história, você seria meu leitor eterno. E nessa leitura diária renovaríamos os contos, aumentaríamos os beijos, abraços e carícias, acrescentaríamos rivais, despiríamo-nos  mais... 
Desculpe te fazer ler tudo isso. É mesmo uma insistência minha querer sofrer e  me guiar por desvarios. Sei que já não adiantam mais cartas, livros, e-mails ou fotografias. Nada disso poderá reunir aquela história que começou antes mesmo que disséssemos  - Quer brincar comigo? Mas é bom que não você não saiba que me alimento em você todos os dias, depois que se despede e fico ainda com a janela aberta. É como se você estivesse vendo tudo o que faço, as músicas que escuto e o que passa em minha cabeça. Eu já te enchi de pedidos, de desculpas e de cartões de aniversário. Se ainda tiver algum, por favor, mande-me pelo correio ou scanea de uma vez e manda. Manda mesmo assim, não importa o meio. Não importa o fim.É só para acrescentar em um livro que um dia ainda vou escrever e me resguardar de que não inventei o personagem que faz par comigo.Não vou lhe cobrar direitos pela história e espero que faça o mesmo, deixe-me invadir em paz nosso passado e enfiá-lo nas páginas desse livro. Deixe de me dar desculpas, me repreenda, diga que não posso por fim a uma história que depende de você. Mostre-me que não escrevo só, que está comigo. Ou melhor, queime tudo cartas, presentes e aquela fotografia do seu mural. Mas saiba que de todo o brilho que mantenho nos olhos permito que uma faísca se manifeste, para a certeza da sua existência e não se esqueça que há sempre alguém torcendo para que tudo se queime, se acabe e aí sim, o fim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sonho afoito


Hoje eu te vi, dormindo e sem boné. Quase não acreditei, ah é, era um sonho. Você ali largado num sofá, tão belo. Aquele seu jeito de moleque largado, tranquilo. Não me contive, num lance me joguei aos seus pés (e pernas) e acordei-o. Assustado, olhou-me, porém, com afeto. E eu, eufórica, atrapalhei aquele momento de olhares e atropelei-o com explicações. Inúmeras, vãs, mas que pra mim faziam todo sentido e seriam motivo de uma longa briga, em que você me cobraria mil coisas. Você me conhece...
Me puxou para cima do seu sofá, não disse absolutamente nada e me abraçou com seus braços e sorrisos. Não consegui me desvencilhar de seu toque, aquele cheiro de quem dormia a tarde inteira, do afagos plenos, dos deslizes que nos divertiam sempre.
Precisei conter meu envolvimento, você já espera por isso, e não me esperou nem me levantar...já estava longe, na sua cidade conturbada, no metrô, nas avenidas. Quando despertei olhei pela janela e vi as montanhas ali, paradas como sempre. Me protegendo, como sempre.