segunda-feira, 27 de julho de 2009

Consagrando a verdade


Descobri que minha obscessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.

*Trecho retirado do belíssimo Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez. Páginas 74 e 74.

8 comentários:

  1. Eu li esse livro há uns dois anos. Quando acabei de ler a última página, tive a nítida certeza de que voltaria a tê-lo nas mãos uma outra vez, como quando vc beija alguém e sabe que não será o último beijo, não tem um motivo racional, apenas sabe.

    Quanto ao teor do seu post, é impressionante como as mesmas coisas às vezes podem ser absolutamente opostas se vc mudar a perspectiva.

    Bjs !!!

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  2. Res: [Pretenso Literato] Novo comentário em Os dois: a barba e a falta — da barba.

    Concordo. Até porque, para mim, uma das coisas mais gratificantes - talvez a mais gratificante - de um relacionamento é a partilha de opiniões.

    (Eu ia responder via e-mail, mas não achei e-mail. Daí... decidi responder por aqui. Sou viciado em responder comentários. Rs). Abraço!

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  3. Uma obra magistral. Foi ótimo você lembrar vou ler outra vez. Beijo

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  4. Não ouso comentar uma palavra de Garcia Marquez.
    O homem é mais do que um escritor - é um transformador, um assassino do tédio e do óbvio.

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  5. Gabriel Garcia Marquez, bacana.
    Bacana, o seu comentário.
    Conhecer o Charneca, bacana.

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  6. Vizinha, tenho andado meio travado e o Direito me deixa todo errado. Não tenho escrito um verso sequer, mas nessa noite saiu de mim mais qu'uma colher.

    Beijos

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  7. Sem dúvida Gabriel García Marquez é um dos grandes escritores desse mundão e o seu livro “Memória de minhas putas tristes” é uma obra prima. Você não chega ao fim desse livro da mesma forma que começou, o mais interessante nessa literatura é reconhecer que o amor pode vir de qualquer lugar e nos atingir de forma arrebatadora a qualquer momento de nossas vidas. É um texto simplesmente genial!

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  8. Num ponto.
    Não num ponto qualquer.
    Não num ponto que encerra.
    Num ponto.
    Onde conheci seu vestido primeiro.(sincero)
    Depois gravei mesmo seu rosto.
    Você passou por mim em meio a multidão algumas vezes. Lembrei do ponto.
    E quando agente acha que vamos embora e que tudo acabou...VENTURA.
    Estamos no mesmo ponto?
    Agora conheci sua voz, seu olhar e um pouco do seu jeito.Não é mais só o vestido.

    Onde tudo terminou?
    Em um ponto, que marcou um ínicio.
    Nunca tinha visto, historia nenhuma que começava com um ponto.
    ...

    Me inspirou, e não me importo de perder o sono.

    Faz tempo que você não escreve aqui?
    Porque?

    Gostei muito do que eu lí.

    Um beijo



    Ps.: Foi um prazer.

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