quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

paradoxo

Será que aos poucos é normal ficar ranzinza com tudo algumas coisas? Ou aos poucos a gente deveria ficar mais tolerante, mais paciente, mais a par de como o mundo funciona?

Entrar nesse equilíbrio é algo demorado ou lento? Se questionar sobre isso é amadurecimento ou ingenuidade? Não são perguntas retóricas. Eu quero mesmo respostas. 

É um paradoxo, veja bem. Já reparei que ter um cronograma, um planejamento super vale à pena. Já notei também que, vez ou outra, as coisas mudam de ordem, saem do schedule.

Não tem dessa de dizer que a gente não controla - controlamos, sim. O 'problema' é que todo mundo controla.  Cada forcinha no Universo vai fazendo a diferença no bolo. Daí, se ele sola, meu filho... tem o dedo de todo mundo. 

Minha mente está cansada de ficar matutando tanta coisa diariamente. Um pouco do passado, um pouco do presente e o futuro lá. São tantas telas. Tanto brilho. 


domingo, 9 de novembro de 2014

Na dela

Na penumbra de uma tarde chuvosa de sábado deitada com os cabelos molhados em seu travesseiro, sem que ninguém se a incomodasse ou perturbasse com aquilo. Já era uma sensação libertadora - um pequeno ato de independência. Uma amostra de que era dona de si.

A fumaça não a incomodou, ao contrário. A sauna criada no cômodo extenso até provocava um certo prazer, uma ambientação erótica que muito combinava com aquela sensação de autocurtição que procurava. Uma prova de que era dona de si.

A escolha das músicas talvez até pudessem ter alguma influência. So what? A vida é feita de trocas. Todos somos influenciáveis, um pouco ingênuos e desconfiados na medida que cabe a cada um. Sua autoconsciência de suas escolhas era uma garantia de que era dona de si.

O próprio toque uma comprovação de seu poder ilimitado sobre si mesma. Não importa de onde a inspiração venha, onde ela se fantasia, onde ela aprende ou aprimora suas técnicas. Dona de cada centímetro, sem que ninguém a chame de sua.

É preciso muito sim. É preciso enorme uma compreensão da responsabilidade que é amá-la. Ela reflete um pouco sobre o que lhe é dito, sobre os rumos que as coisas vão tomando. As escolhas que ela faz são prova da expectativa que ela deposita em algo que pode ser a extensão de uma aventura. Um prolongamento. Heaven only knows.

Ela tem uma mente aberta e sempre se permitiu. Às vezes se condenou, às vezes se culpou, sim. Natural. O mundo é hipócrita demais e sua autoconsciência sobre seus desejos e pulsões já a fizeram pensar que deveria parar, mas ela é maior do que isso. Viveu cada segundo de suas vontades como lhe era permitido e isso requer inventividade.

Criar sempre foi algo que ela dominou bem. Ela cria sua própria independência, a seu modo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A caminho do trabalho

Quando eu vejo o céu limpo sem uma nuvem se quer é como se eu acreditasse um pouco mais em Deus. 
Parece que Ele deixou tudo assim claro, pintou tudo num azul sereno, como um azul tem que ser de verdade. É como se o mundo inteiro estivesse envolto num manto onde só há paz. Porque a verdade maior é essa: só deveria mesmo haver paz. E amor.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado
Um dia eu vou deitar debaixo daquelas árvores frondosas, de galhos firmes e folhas de todas as cores. Vou estar ouvindo o barulho do vento no entardecer beijá-las uma a uma, fazendo a amarela corar-se, a rosa enrubrecer-se e os passarinhos aninharem-se. Vou estar largada com um vestido florido, os cabelos tocando a grama e um pedaço do seu peito. O sol vai se aproveitar da minha distração e penetrar por baixo da saia do vestido, deixando tudo ainda mais quente e aconchegante. Você vai estar com o olhar distante e eu querendo encontrar seus olhos naquele seu infinito paralelo. Eu vou ter um sorriso enorme nos lábios e uma longa e demorada lágrima num canto do rosto. Vou deixar a lágrima escorrer meio que sem querer querendo só para que você a perceba, para que note o valor daquele momento. Neste dia vai ter um momento que você vai querer fazer um balanço da vida, do que a gente viveu antes e depois de nos encontrarmos, vai falar das suas viagens, dos seus feitos e aventuras, vai me apertar contra o peito e dizer que foi bom. Dai vai ter um instante - pequeno, sublime, quase que imperceptível - que você vai ter uma epifania ao sentir o meu toque meio que desinteressado no seu monólogo.

"Eu tive sorte ao encontrar conforto em minha felicidade", seu íntimo vai ecoar quase tão alto e de um modo tão ensurdecedor que a única coisa possível de ser balbuciada pela sua boca será:  - Eu amo você.

Quando meus ouvidos encontrarem cada timbre entoado pela sua voz macia meu corpo inteiro transbordará num arrepio extasiante. E a partir desse exato momento eu irei me transportar para o passado. Me lembrarei do dia em que você me disse que já tinha a data da partida, que tinha um plano e que era para eu ser positiva. Vou me lembrar com toda clareza que naquele dia chovia, que eu estava em um ônibus, cansada do trabalho e ainda animada com a sua proposta temprana para uma curta viagem à cidade onde dizem não existir amor. Vou me lembrar que chorei sem vergonha da moça ao meu lado no banco, que desci apressada sem cuidar de não me molhar nas poças ou de bater num pedestre tão desorientado quanto eu. Vou me lembrar que subi as escadas correndo, que me larguei na cama com um desespero imenso, que gemi de dor sem ter medo de ser repreendida pela companheira de apartamento, que quis gritar, te agarrar, te manter nos meus braços....

Ah!
Mas já é tarde. É melhor do que fora. É melhor do que sonho. É melhor do que plano. Vai ter um momento que eu vou ser interrompida dessa minha súbita e entristecida viagem pelas suas mãos a brincarem com a luz do sol debaixo do meu vestido. Vai ser naquele instante a minha consagração: eu já sabia que a gente seria feliz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Travessuras noturnas de uma senhora de 60 anos

Era fim do expediente e eu voltava para casa, mas desta vez optei por uma calçada diferente. A mudança, de fato, trouxe algo novo: uma senhorinha caminhando soterramente no passeio com embrulhos nas mãos.

Tinha acabado de voltar do supermercado, mas carregava no rosto uma expressão muito mais contente do que a de szalguém que só comprara os itens faltantes no fim do mês. Foi quando percebi que uma de suas mãos estava lambuzada de chocolate e que ela saboreava um croissant com a mesma energia que as crianças na porta do colégio devoravam a pipoca de rua. 

Era fim do expediente para mim, mas para aquela senhora era o início de uma façanha gostosa de uma noite de outono. Com a doçura lambuzando-lhe os dedos ela deixava o rosto sorrir de alegria sem pensar que mais tarde o filho ou o marido lhe mediriam os índices glicéricos. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

dá pra ser como já é




dá pra sentir meu coração saltar pela boca
talvez pela primeira vez tenha sido possível, de fato, sentir o meu coração
e ele é forte
é retumbante 

dá para sentir meu rosto formigar inteiro 
e é possível que eu nunca tivesse experimentado algo tão intenso assim
como se cada partícula fizesse questão de demonstrar o efeito que você provoca
[é desconcertante] 

dá para ficar deitada horas, dias, semanas do seu lado 
enquanto minhas pernas bambas entrelaçam as suas
e um pouco do meu corpo queira evitar satisfazer do desejo de ficar ali mais
                                                                                                                      [e mais

dá pra pensar lá na frente sem sofrer
enquanto você me acorda querendo cada centímetro meu
chorar e sorrir descompensadamente em uma fração de segundos apenas pela delícia de 

viver agora