quarta-feira, 28 de maio de 2014

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado
Um dia eu vou deitar debaixo daquelas árvores frondosas, de galhos firmes e folhas de todas as cores. Vou estar ouvindo o barulho do vento no entardecer beijá-las uma a uma, fazendo a amarela corar-se, a rosa enrubrecer-se e os passarinhos aninharem-se. Vou estar largada com um vestido florido, os cabelos tocando a grama e um pedaço do seu peito. O sol vai se aproveitar da minha distração e penetrar por baixo da saia do vestido, deixando tudo ainda mais quente e aconchegante. Você vai estar com o olhar distante e eu querendo encontrar seus olhos naquele seu infinito paralelo. Eu vou ter um sorriso enorme nos lábios e uma longa e demorada lágrima num canto do rosto. Vou deixar a lágrima escorrer meio que sem querer querendo só para que você a perceba, para que note o valor daquele momento. Neste dia vai ter um momento que você vai querer fazer um balanço da vida, do que a gente viveu antes e depois de nos encontrarmos, vai falar das suas viagens, dos seus feitos e aventuras, vai me apertar contra o peito e dizer que foi bom. Dai vai ter um instante - pequeno, sublime, quase que imperceptível - que você vai ter uma epifania ao sentir o meu toque meio que desinteressado no seu monólogo.

"Eu tive sorte ao encontrar conforto em minha felicidade", seu íntimo vai ecoar quase tão alto e de um modo tão ensurdecedor que a única coisa possível de ser balbuciada pela sua boca será:  - Eu amo você.

Quando meus ouvidos encontrarem cada timbre entoado pela sua voz macia meu corpo inteiro transbordará num arrepio extasiante. E a partir desse exato momento eu irei me transportar para o passado. Me lembrarei do dia em que você me disse que já tinha a data da partida, que tinha um plano e que era para eu ser positiva. Vou me lembrar com toda clareza que naquele dia chovia, que eu estava em um ônibus, cansada do trabalho e ainda animada com a sua proposta temprana para uma curta viagem à cidade onde dizem não existir amor. Vou me lembrar que chorei sem vergonha da moça ao meu lado no banco, que desci apressada sem cuidar de não me molhar nas poças ou de bater num pedestre tão desorientado quanto eu. Vou me lembrar que subi as escadas correndo, que me larguei na cama com um desespero imenso, que gemi de dor sem ter medo de ser repreendida pela companheira de apartamento, que quis gritar, te agarrar, te manter nos meus braços....

Ah!
Mas já é tarde. É melhor do que fora. É melhor do que sonho. É melhor do que plano. Vai ter um momento que eu vou ser interrompida dessa minha súbita e entristecida viagem pelas suas mãos a brincarem com a luz do sol debaixo do meu vestido. Vai ser naquele instante a minha consagração: eu já sabia que a gente seria feliz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Travessuras noturnas de uma senhora de 60 anos

Era fim do expediente e eu voltava para casa, mas desta vez optei por uma calçada diferente. A mudança, de fato, trouxe algo novo: uma senhorinha caminhando soterramente no passeio com embrulhos nas mãos.

Tinha acabado de voltar do supermercado, mas carregava no rosto uma expressão muito mais contente do que a de szalguém que só comprara os itens faltantes no fim do mês. Foi quando percebi que uma de suas mãos estava lambuzada de chocolate e que ela saboreava um croissant com a mesma energia que as crianças na porta do colégio devoravam a pipoca de rua. 

Era fim do expediente para mim, mas para aquela senhora era o início de uma façanha gostosa de uma noite de outono. Com a doçura lambuzando-lhe os dedos ela deixava o rosto sorrir de alegria sem pensar que mais tarde o filho ou o marido lhe mediriam os índices glicéricos.