segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Autossabotagem


Tava quase seco e só um observador atento viria que ainda existia algo ali. Tava quase seco, mas não ao ponto de não me fazer mais sangrar. Eu não sei se fiz por querer ou se esbarrei em alguma coisa que fez a cicatriz se abrir.Bastou e doeu. Doeu no fundo da minha alma, na superfície da minha pele, no lado esquerdo do peito, no canto dos olhos, na amargura da boca e em cada centímetro do meu eu. Doeu. 
A cicatriz aberta me mostrava cada lembrança, cada flash de esperança se esvaindo com a dor. Um arrepio tomou conta dos meus pensamentos e vivi cada sorriso, cada abraço e beijo outra vez. Só retomei os sentidos quando percebi que eu ainda sangrava. 
Tentei conter a emoção das lembranças tão intensas com um banho puro. Nada mais foi do que uma tentativa de experienciar a sabedoria popular do "lavar alma". A água na verdade só tornou os meus pensamentos que, mais claros, permitiram-me ver além dos sorrisos, beijos e abraços. Vi toda a causa de ferimento tão interno e profundo. 
Lamentei não ter visto antes, lamentei não ter sentido nada (e tudo ao mesmo tempo), lamentei minha expressão inerte. Enfim, lamentei ainda lamentar pelo vestígio do estrago que fizemos no meu coração.
Daí eu parei de lamentar, retomei o fôlego e fiquei parada um bom tempo olhando aquela cicatriz ali, parada, como devia mesmo ser. Corri os dedos em seu contorno, senti a temperatura, apertei de leve, raspei com as pontas das unhas. Eu meio que curti essa autoflagelação temporária. Era bom saber o porquê doía. O porquê ainda machucava e incomodava. Lembrar de cada vez em que fizemos essa ferida crescer, penentrando em cada camada, forte, lenta e dolorosamente, ao longo de anos.
E agora é isso, o que restou-me mais? Uma chaga não-curada que só pode contar com o tempo pra fechá-la de uma vez.