Eu queria entender porque eu ainda cismo em sofrer por você. Como se a gente estivesse mesmo feliz naquele tempo. E eu sei que não. Sei que sofria, chorava, brigava - e queria qualquer pessoa, menos você. Daí, agora isso.
Eu tenho a liberdade que eu tanto queria. Tenho os dias de folga que são só meus. Tenho milhares de lugares e pessoas para frequentar. E não entendo por que insisto em bater na porta da sua casa de vez em quando. Mesmo que seja para buscar um pouco da saudade dos momentos bons que vivemos por lá e pra deixar marcado, cravado no peito de algumas pessoas - que você me trouxe ao convívio - a minha presença.
Eu sei que eles não se esqueceram de mim, pelo contrário, eles também me procuram. Ligam, conversam, visitam a minha rotina. E, veja ainda que ironia, me aconselham a felicidade em outros lugares, pessoas e esquinas. Eu devia ouvir essa gente. Eles, pelo menos, ainda parecessem me amar.
Mas, ora, que bobagem! Com que direito agora eu posso cobrar essa coisa, isso de amor. Loucura, eu sei.
Eu poderia querer te esquecer meio que assim de graça. Deixar você só naquela caixa de papel colorido que eu tenho guardada com tudo um pouco do que colecionamos juntos. Eu devia mesmo era parar de perseguir a sua rotina e querer ter notícias suas. Ou talvez criar vergonha na cara e te apontar todos os seus amigos - que não são amigos assim, pra ver se assim, você repara um pouco em mim. Eu podia pegar um ônibus e ir aí te dizer essas verdades todas. Te ver, quem sabe, me seria como um banho de água fria - que eu provavelmente tomaria como uma simpatia pra começar bem o ano novo.
Pensando bem, eu deveria pegar um avião, nessa época a rodoviária fica um inferno. Mas, talvez, o aeroporto fique longe demais da sua casa, não sei. Nem mesmo onde você mora. Aliás, pelas notícias que insisto em buscar acho que nem conheço mais esse você. E não é culpa sua. Não é coisa boa ou ruim. A gente foi seguindo e, poxa, já tem um ano. Um longo ano em que muita coisa mudou.
E, olha, não fui só eu quem notou. Cheguei em casa noutra noite e o porteiro perguntou de você. Juro. Eu ri sem graça, mas ele percebeu que os meus olhos brilharam e que eu fiz esforço para não deixar aquela lágrima cair dos meus olhos - completamente marejados. Ah, daí eu lembrei do mar e do ano que a gente foi pra praia. Das simpatias e juras que fizemos. Bom tempo, mas acabou se perdeu...como diria o Chico.
Daí eu voltei um segundo pro porteiro e disse por onde anda você. Ele disse que jurava que a gente casava. Falei: "pois é, eu também". Acontece, vai. Do mesmo jeito que aconteceram zilhões de coisas nesse - um ano. O dia todo especial em que te liguei esperando sentir felicidade na sua voz ao ouvir a minha, ansiosa, do outro lado da linha. Remota ilusão.
Aconteceu tanta coisa na sua vida que eu nem reparei.
Eu deveria te aceitar como missão encerrada. Juntar tudo aquilo da caixa na faxina de fim de ano. É isso o que eu deveria fazer: parar de sofrer por não estar com você, mesmo que infeliz.
Mas, pra falar a verdade, acho que sofro por saber que ainda sem você eu não sou feliz.
Pessoas, momentos e histórias sempre há algo a mais: ponto escondido, olhar enrustido, vírgula fora do lugar ou tê sem cortar.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
quarta-feira, 28 de dezembro de 2011
Velha infância, não mais
Eu já tinha ouvido a verdade de todo mundo. Mas Alguém quis que eu ouvisse cada sílaba ser pronunciada pelo som inconfundível da sua voz. Doeu em cada parte do - nos-sa his-tó-ri-a a-do-les-cen-te. Eu só não esperava que você fosse capaz de completar o meu tormento ao ouvir tudo aquilo, me dizendo da história que você escolheu viver. Ficou claro que se cansou da velha infância, dos domingos na beira do rio, da falta de convivência, das cartas semanais que chegavam do correio. É normal - só eu que não tinha percebido. É claro que você um dia teria que seguir com alguém que estivesse by your side. Nada fica congelado, embora eu adoraria apertar o play de onde paramos.
Me fazendo ouvir a verdade, você só fez assassinar qualquer vigor do nosso plano de vida. Mas, que plano? Eu devia ter entendido que seus não-sinais eram a sua mensagem mais clara sem massacrar todos os meus sentimentos.
De amarelo desbotado o nosso livro ficou escuro e, de repente, foi tomado pelo branco surpreendente que o fez sumir. Mas, que livro?
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
sábado, 10 de dezembro de 2011
The question is...
A ordem superior dizia que o ideal era nunca perguntar: qual, onde e o quê?
Quando se fica nos porquês a coisa sempre rende muito mais. Talvez isso valha pra mais do que uma área da vida.
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Impressões
Tive vontade de passar o dedo no vidro para ver se não era só a poeira que tornava tudo nublado.
Daí, me dei conta de que estava cinza por dentro e, não, do lado de fora.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
Autossabotagem
Tava quase seco e só um observador atento viria que ainda existia algo ali. Tava quase seco, mas não ao ponto de não me fazer mais sangrar. Eu não sei se fiz por querer ou se esbarrei em alguma coisa que fez a cicatriz se abrir.Bastou e doeu. Doeu no fundo da minha alma, na superfície da minha pele, no lado esquerdo do peito, no canto dos olhos, na amargura da boca e em cada centímetro do meu eu. Doeu.
A cicatriz aberta me mostrava cada lembrança, cada flash de esperança se esvaindo com a dor. Um arrepio tomou conta dos meus pensamentos e vivi cada sorriso, cada abraço e beijo outra vez. Só retomei os sentidos quando percebi que eu ainda sangrava.
Tentei conter a emoção das lembranças tão intensas com um banho puro. Nada mais foi do que uma tentativa de experienciar a sabedoria popular do "lavar alma". A água na verdade só tornou os meus pensamentos que, mais claros, permitiram-me ver além dos sorrisos, beijos e abraços. Vi toda a causa de ferimento tão interno e profundo.
Lamentei não ter visto antes, lamentei não ter sentido nada (e tudo ao mesmo tempo), lamentei minha expressão inerte. Enfim, lamentei ainda lamentar pelo vestígio do estrago que fizemos no meu coração.
Daí eu parei de lamentar, retomei o fôlego e fiquei parada um bom tempo olhando aquela cicatriz ali, parada, como devia mesmo ser. Corri os dedos em seu contorno, senti a temperatura, apertei de leve, raspei com as pontas das unhas. Eu meio que curti essa autoflagelação temporária. Era bom saber o porquê doía. O porquê ainda machucava e incomodava. Lembrar de cada vez em que fizemos essa ferida crescer, penentrando em cada camada, forte, lenta e dolorosamente, ao longo de anos.
E agora é isso, o que restou-me mais? Uma chaga não-curada que só pode contar com o tempo pra fechá-la de uma vez.
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