Páginas

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Sentimentalidades

"... tinha suspirado,
tinha beijado o papel devotamente!
Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades,
e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas,
como um corpo ressequido que se estira num banho tépido;
sentia um acréscimo de estima por si mesma,
e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante,
onde cada hora tinha o seu encanto diferente,
cada passo condizia a um êxtase,
e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"

Eça de Queirós, Primo Basílio.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

From my heart



"Se tens um coração de ferro, bom proveito.
O meu fizeram-no de carne e sangra todo dia".

José Saramago

sábado, 15 de janeiro de 2011

Atrasos


Eu tenho adiado o meu dia em alguns minutos. Normalmente, o despertador faz esse processo de cinco em cinco, mas eu sou exigente e sempre deixo ele passar um pouco mais que isso. Quando percebo, já se foram quase 60 e eu ainda estou deitada, imersa na minha angústia e querendo mergulhar ainda mais naquele edredon. Vez ou outra, meto a cara embaixo do cobertor que é pra não ver a claridade lá fora. Não quero saber do tempo, da chuva ou do sol. As condições climáticas não têm alterado o meu humor habitalmente nublado. Daí, de repente, fica quente demais e eu ponho o rosto pra fora pra ver se um pouco de ar faz melhorar, mas eu ainda sinto-me sufocada. (Então), (e não) há muito o que fazer. Eu rezo pra que o dia seja bom, para que eu veja cores e tenha brilho. 
Quase nunca adianta. 
Volto pra casa com a mesma vontade de me afundar na cama e ver se, dormindo, paro de sonhar.
Eu tenho adiado a minha vida em alguns anos. E, normalmente, não há relógio que conserte esses desvios do tempo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Imperfeito


Eu não sei o que pode mais maltratar você. A minha sinceridade te machuca, mas a mentira pode doer ainda mais. Meias palavras não deveriam fazer parte de uma relação entre duas pessoas que dizem querer se completar - uma na outra. Mas é que tudo tem um jeito melhor de ser dito, não é? O problema é que já não sei se, fazendo assim, estamos arrumando ou arruinando as nossas vidas. 
E ainda tem isso do seu silêncio, que me consome. A sua indefinição também me pertuba, mas temo tanto por uma decisão final que já considero essa incompletude o roteiro dos meus dias. Só não sei por quanto tempo. 

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Bookends

Simon & Garfunkel


Time it was and what a time it was it was,
A time of innocence a time of confidences.

Long ago it must be, I have a photograph
Preserve your memories, they're all that's left you.






Soundtrack: 500 Days of Summer.

domingo, 26 de dezembro de 2010

A parte que (nos) falta


Você teima em dizer que te atropelo com perguntas e opiniões, que não espero por uma brecha deixada numa reticência leve ou que conclua a sentença com o seu ponto final. Daí, fico pensando se não é mesmo assim que se constrói um diálogo, se é você que tem necessidade de pequenos monógolos intercalados ou se, na verdade, um diálogo nada mais é do que uma combinação daqueles dispostos um sobre o outro. Talvez, no seu raciocínio, seja preciso que cada um deles saiba onde se posicionar e que seria pecado mortal a intromissão de um no espaço do outro. O meu medo é que, avaliando conversas simples (ou complexas) dessa forma, seja provável que você avalie uma relação seguindo essa mesma lógica. 
Neste caso, cada um teria o seu espaço no parágrafo - logo ali, depois dos dois pontos e abrindo a sentença com o seu travessão. Ora! Prefiro construir algo junto. Já pensou como seria mágico se pudéssemos colocar uma palavra na frase da outro?
Ter o nosso dualismo numa coisa só. 

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Vento ponteiro



Lá fora há um papel correndo na enxurrada, parece que vai longe. 
Lá fora há um sol lindo e laranja. Quente, parece me convidar. 
Mas há tanto aqui dentro, que já não sei se posso deixar tantas lembranças órfãs. Não acho que serei capaz de abandoná-las, elas já fazem parte de mim de algum modo - pra sempre. O sol não poderia simplesmente me queimar ou a chuva, que fosse, ela não poderia me carregar por aí? Hoje em dia, todo mundo incorporou essa coisa do make yourself e não posso, simplesmente, ignorar as convenções do mundo em que vivo. Se fosse possível, tenho uma boa lista de ideias das coisas serem feitas. 
De certa forma tudo já está correndo e me queimando. Nem todos os dias algo grande acontece e nem todos os pequenos acontecimentos fazem algum sentido, por mais queira encontrar vestígios das minhas fantasias na realidade. 
Como uma palavra que o vento levou devagarzinho pra bem perto do meu ouvido e depois foi assoprando, impregnando, lentamente, cada fonema na minha mente. Aquele mesmo vento propagador dos meus melhores momentos para o fundo da minha alma.  Mesmo quando ele era uma brisa gostosa e leve que nem balançava direito os meus cabelos, mas dava um frescor por todo o meu corpo. Ou quando ele ganhou força e até ensaiou uma pequena ventania. Fiquei desconcertada, lembro de ter-me arrepiado inteira com tamanha sensação de liberdade, mas não era nada que fizesse os papéis na mesa se perderem pela varanda em busca de um pouso distante. Talvez esse seja o momento de encontrar os quatro ventos.