quarta-feira, 25 de março de 2015

Você devia ter sido o primeiro homem da minha vida

Eu duvido que algum homem rejeite a oportunidade ser o primeiro de uma mulher. O primeiro a dizer 'minha princesa', a cortejar o carinho dela, a pegá-la no colo, a apresentar os primeiros sabores, a atender aos seus chamados, a compreender seu choro, ampará-la. O primeiro a mostrar-lhe o novo, apresentá-la aos seus pais, aos seus amigos. Fazê-la parte da sua vida. 

O que aconteceu com você? Acho que você simplesmente não quis ser o primeiro da minha vida. Talvez tenha sido a pressão, você não sabia lidar com algo tão novo, talvez tenha sido covardia mesmo. Falta de coragem — é isso o que eu penso que foi. Embora um homem bronco, criado na roça, criado para ser "homem", faltou bater no peito e honrar seus compromissos quando lhe exigido fora. Foi medo?

Você não quis enfrentar a todos os que estavam à sua volta para estar comigo. Não aceito o "não pode" — você não quis. 

Cresci com minha mãe e minha vó. Elas me ensinaram cedo que "quem quer faz, quem não quer manda". Se você quisesse estar comigo, assim como quis naquele momento extremo de prazer e excitação no qual eu comecei a nascer, você estaria. 

Às vezes me pergunto se você tem alguma dimensão de como a sua renúncia e ausência impactaram no modo como eu sou e em como eu me relaciono com os outros — especialmente com os homens. Não, você não faz a mínima ideia. Você sequer me conhece. 

Você não quis me conhecer. Afinal, você não quis fazer parte da minha vida ou de nada disso. Quem me vê exalta minha inteligência, beleza, coragem, educação. Reforçam a mulher forte em que me tornei. Para mim tudo isso é o puro reflexo das mulheres que me criaram. E, não, não vou agradecer a você por ter ao se renunciar do papel que lhe cabia ter me embrutecido pela vida. 

Quantas vezes eu quis entender o que é almoçar em família, domingos, viagens. "Como foi na escola? Quem é esse garoto? Quem é a minha menina?". Eu cresci na defensiva. Eu acabei criando um modo conturbado de me relacionar com os homens. Eu fui devota a eles. Eu me anulei por eles. Eu quis satisfazê-los e quase esqueci de mim mesma. 

Havia (e há) uma razão para tudo isso. Eu temia que eles, como você, fossem embora. Ou nunca ficassem. Ou se cansassem de mim. Ou sumissem. Hoje é bom compreender tudo isso e me amar um bocado mais. É bom não ter que me desafiar para provar do que sou capaz para amar ou para provar que posso ser amada. Eu posso e eu sou. E é uma pena que você não tenha sido o primeiro homem da minha vida, pai. 

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