quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sinto que o mês presente me assassina



Mário Faustino
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.





Era uma tarde que já ia morrendo e enquanto aguardava o ônibus que havia se esquecido do ponto, do tempo e dos passageiros, quando ouvi na coluna Devaneio, de Juca de Oliveira, este poema. É incrível a capacidade dos poetas, amantes e literatos em lidar com as palavras numa construção tão bela e própria. Gostei muito do que ouvi, espero que compartilhem. 

2 comentários:

  1. e a poesia é bem assim: aquilo que se capta da vida e se vomita: com suor, sangue e alma.

    Não sei bem se escrever poesia é lidar com as palavras. De certo modo é, mas, há algo de escravizador em "ser poeta".

    As palavras dominam e nos moldam. Eu sou o que a poesia quer que eu seja.


    Comigo a coisa flui por aí.


    abraços mineiros.

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  2. Fiquei muito feliz de ver o Mário por aqui. Senti-me meio que ponte entre dois mundos que andam paralelos e podem ter muito a contribuir um ao outro. Não é sempre assim? Não há tantos traços infinitos rumando solitários a caminho de não se sabe exatamente o quê? Daí, acontecem momentos de intersecção, um encontro literário ou não, pode ser nada e ainda sim ser interessante. É bom perceber que há nos outros não nossas respostas, mas ainda as mesmas perguntas que há dentro de nós. É uma forma de companhia sem presença. Bjs, querida.

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