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terça-feira, 27 de maio de 2014

Travessuras noturnas de uma senhora de 60 anos

Era fim do expediente e eu voltava para casa, mas desta vez optei por uma calçada diferente. A mudança, de fato, trouxe algo novo: uma senhorinha caminhando soterramente no passeio com embrulhos nas mãos.

Tinha acabado de voltar do supermercado, mas carregava no rosto uma expressão muito mais contente do que a de szalguém que só comprara os itens faltantes no fim do mês. Foi quando percebi que uma de suas mãos estava lambuzada de chocolate e que ela saboreava um croissant com a mesma energia que as crianças na porta do colégio devoravam a pipoca de rua. 

Era fim do expediente para mim, mas para aquela senhora era o início de uma façanha gostosa de uma noite de outono. Com a doçura lambuzando-lhe os dedos ela deixava o rosto sorrir de alegria sem pensar que mais tarde o filho ou o marido lhe mediriam os índices glicéricos. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

dá pra ser como já é




dá pra sentir meu coração saltar pela boca
talvez pela primeira vez tenha sido possível, de fato, sentir o meu coração
e ele é forte
é retumbante 

dá para sentir meu rosto formigar inteiro 
e é possível que eu nunca tivesse experimentado algo tão intenso assim
como se cada partícula fizesse questão de demonstrar o efeito que você provoca
[é desconcertante] 

dá para ficar deitada horas, dias, semanas do seu lado 
enquanto minhas pernas bambas entrelaçam as suas
e um pouco do meu corpo queira evitar satisfazer do desejo de ficar ali mais
                                                                                                                      [e mais

dá pra pensar lá na frente sem sofrer
enquanto você me acorda querendo cada centímetro meu
chorar e sorrir descompensadamente em uma fração de segundos apenas pela delícia de 

viver agora


domingo, 22 de dezembro de 2013

sabores do ano que não terminou em agosto

o ano não acabou em agosto. os meses seguintes tiveram sabores distintos: o amargo do medo, da competição, da desatenção alheia; o doce da amizade, da conquista, do sorriso perdido na praia de Ipanema; o azedo da decepção, da soberba, da mediocridade; o salgado do mar e das contas a pagar. 

e talvez o mais gostoso deles: o agridoce da descoberta de mim mesma.

eu tracei as minhas metas pensando em apurações insanas, plantões intermináveis, em rotinas e na falta delas, simplesmente porque eu sabia que isso me movia, me tornava útil, me fazia viva. mas não. não era nada disso. 

o combustível deixou de ser a superação intelectual. bobagem! 

o que move cada extremidade do corpo agora é muito maior do que a arte de contar histórias alheias. exatamente neste momento há uma compreensão das peças que faltam a ser completadas e que não serão o trabalho que trarão.

é essa delícia de brisa que mostra como é bom estar vivo, como é bom conhecer sorrisos e ser lida por eles. é apreciar o sol te acordar de manhã, estar apto a caminhar por um calçadão com cenário deslumbrante, sentir-se abraçada por Deus,  beber um chope gelado com um novo amigo, encontrar um conhecido no meio da rua, celebrar com os amigos, reconhecê-los, ser amada, amar, estar em família, desejar tem uma só pra você, cultivar admiradores, semear boas coisas, ouvir, respirar profundamente, cantar com uma criança, sorrir como uma. 

ver a beleza em coisas simples, não se esforçar para encontrar momentos de felicidade. eles simplesmente acontecem todo o tempo, basta perceber que os ciclos não terminam antes que você se permita cumpri-los. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maintenant



Vai passar: o sufoco, a tormenta, o receio, a desconfiança, a banda, a angústia, o desconforto. 

Assim como também passarão: a alegria,
                                            a satisfação, 
                                            o reconhecimento: a exaltação. 

O que fica está no meio e é chamado   

                                                    esforço. 


Soberano e diário. Maior que as preocupações, contratempos, contravenções, regras e padrões. Ele é o reinventar-se, o descobrir-se, o amadurecer. O esforço é um aluno exemplar, talvez seja um pouco autodidata, talvez aprenda com os solavancos, com as inquietações, com o zum zum zum no ouvido, com o batuque dos pés. Ele é um pouco daqueles que sabem que vão cruzar com o erro, a dúvida e o fracasso no meio do corredor, mas sabe exatamente que vai encará-los  feito um garoto cansado do bullying na escola. 

Ele tem esse vigor assim de menino novo, mas está criando maturidade. Virando gente, como diriam na minha terra. 

Esforço sabe que o tempo também vai passar pra ele e é por isso que pensa a vida é agora

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

One art



The art of losing isn't hard to master;
So many things seem filled with the intent
To be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
Of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
Places, and names, and where it was you meant
To travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
Next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
Some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
The art of losing's not too hard to master
Though it may look like (Write it!) like disaster.

(BISHOP,Elizabeth. 1977)

terça-feira, 25 de junho de 2013

faça-me rir



pode tudo ser uma questão de ponto de vista, mas criar expectativas é algo inerente ao ser humano. e isso é tão ruim. 

a gente se apega a palavras, momentos. acredita ter amigos, amores, família. talvez seja um pouco do amargor que faça eu pensar assim. mas acho tudo muito ruim. 

eu queria mesmo  não ter esperado tanto assim e ser surpreendida. é tão bom abrir um sorriso largo e sincero. ser honestamente rendida pela capacidade do outro de desarmar as barreiras que criamos para nos proteger. sorrir. 

se surpreender. 

esperar pelo pior talvez fosse uma maneira mais simples de conseguir momentos, mesmo que pequenos, de felicidade. quando acontecesse tudo ao contrário do imaginado, a gente simplesmente mostraria os dentes e deixaria escorrer a lágrima da alegria. 

se surpreender com o pior. 

pode ser que olhando do outro lado, o pessimismo corrompa toda a energia para tentar deixar a felicidade aflorar. mas é como disse, criar expectativas é algo inerente ao ser humano. e isso é tão bom. 

a gente se apega a finais nos quais todo mundo ri. 

deixa eu terminar desse jeito para que você também acredite que comigo foi assim. 

só que a gente se surpreende.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Desconfie da maré

Me esforcei para enviar em transmissão de pensamento algo que fizesse você entender o que se passa por aqui. Se deu certo, não sei. 

Vai ver você não parou um minuto sequer do seu dia para refletir sobre as oportunidades que deixou passar ao longo desses anos. 

Eu sim. Se deu certo, não sei. Pensei nos planos, nos fatos e no sorriso. 

Quando vejo tragédias ao nosso redor penso nas nossas pequenas lamúrias e no quanto desperdiçamos a chance de sermos felizes. Você calmamente dirá "aponta pra e rema". 

Mas e você, tem remado?