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sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A caminho do trabalho

Quando eu vejo o céu limpo sem uma nuvem se quer é como se eu acreditasse um pouco mais em Deus. 
Parece que Ele deixou tudo assim claro, pintou tudo num azul sereno, como um azul tem que ser de verdade. É como se o mundo inteiro estivesse envolto num manto onde só há paz. Porque a verdade maior é essa: só deveria mesmo haver paz. E amor.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado

Escrevo-lhe agora sobre o dia em que falaremos do passado
Um dia eu vou deitar debaixo daquelas árvores frondosas, de galhos firmes e folhas de todas as cores. Vou estar ouvindo o barulho do vento no entardecer beijá-las uma a uma, fazendo a amarela corar-se, a rosa enrubrecer-se e os passarinhos aninharem-se. Vou estar largada com um vestido florido, os cabelos tocando a grama e um pedaço do seu peito. O sol vai se aproveitar da minha distração e penetrar por baixo da saia do vestido, deixando tudo ainda mais quente e aconchegante. Você vai estar com o olhar distante e eu querendo encontrar seus olhos naquele seu infinito paralelo. Eu vou ter um sorriso enorme nos lábios e uma longa e demorada lágrima num canto do rosto. Vou deixar a lágrima escorrer meio que sem querer querendo só para que você a perceba, para que note o valor daquele momento. Neste dia vai ter um momento que você vai querer fazer um balanço da vida, do que a gente viveu antes e depois de nos encontrarmos, vai falar das suas viagens, dos seus feitos e aventuras, vai me apertar contra o peito e dizer que foi bom. Dai vai ter um instante - pequeno, sublime, quase que imperceptível - que você vai ter uma epifania ao sentir o meu toque meio que desinteressado no seu monólogo.

"Eu tive sorte ao encontrar conforto em minha felicidade", seu íntimo vai ecoar quase tão alto e de um modo tão ensurdecedor que a única coisa possível de ser balbuciada pela sua boca será:  - Eu amo você.

Quando meus ouvidos encontrarem cada timbre entoado pela sua voz macia meu corpo inteiro transbordará num arrepio extasiante. E a partir desse exato momento eu irei me transportar para o passado. Me lembrarei do dia em que você me disse que já tinha a data da partida, que tinha um plano e que era para eu ser positiva. Vou me lembrar com toda clareza que naquele dia chovia, que eu estava em um ônibus, cansada do trabalho e ainda animada com a sua proposta temprana para uma curta viagem à cidade onde dizem não existir amor. Vou me lembrar que chorei sem vergonha da moça ao meu lado no banco, que desci apressada sem cuidar de não me molhar nas poças ou de bater num pedestre tão desorientado quanto eu. Vou me lembrar que subi as escadas correndo, que me larguei na cama com um desespero imenso, que gemi de dor sem ter medo de ser repreendida pela companheira de apartamento, que quis gritar, te agarrar, te manter nos meus braços....

Ah!
Mas já é tarde. É melhor do que fora. É melhor do que sonho. É melhor do que plano. Vai ter um momento que eu vou ser interrompida dessa minha súbita e entristecida viagem pelas suas mãos a brincarem com a luz do sol debaixo do meu vestido. Vai ser naquele instante a minha consagração: eu já sabia que a gente seria feliz.

terça-feira, 27 de maio de 2014

Travessuras noturnas de uma senhora de 60 anos

Era fim do expediente e eu voltava para casa, mas desta vez optei por uma calçada diferente. A mudança, de fato, trouxe algo novo: uma senhorinha caminhando soterramente no passeio com embrulhos nas mãos.

Tinha acabado de voltar do supermercado, mas carregava no rosto uma expressão muito mais contente do que a de szalguém que só comprara os itens faltantes no fim do mês. Foi quando percebi que uma de suas mãos estava lambuzada de chocolate e que ela saboreava um croissant com a mesma energia que as crianças na porta do colégio devoravam a pipoca de rua. 

Era fim do expediente para mim, mas para aquela senhora era o início de uma façanha gostosa de uma noite de outono. Com a doçura lambuzando-lhe os dedos ela deixava o rosto sorrir de alegria sem pensar que mais tarde o filho ou o marido lhe mediriam os índices glicéricos. 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

dá pra ser como já é




dá pra sentir meu coração saltar pela boca
talvez pela primeira vez tenha sido possível, de fato, sentir o meu coração
e ele é forte
é retumbante 

dá para sentir meu rosto formigar inteiro 
e é possível que eu nunca tivesse experimentado algo tão intenso assim
como se cada partícula fizesse questão de demonstrar o efeito que você provoca
[é desconcertante] 

dá para ficar deitada horas, dias, semanas do seu lado 
enquanto minhas pernas bambas entrelaçam as suas
e um pouco do meu corpo queira evitar satisfazer do desejo de ficar ali mais
                                                                                                                      [e mais

dá pra pensar lá na frente sem sofrer
enquanto você me acorda querendo cada centímetro meu
chorar e sorrir descompensadamente em uma fração de segundos apenas pela delícia de 

viver agora


domingo, 22 de dezembro de 2013

sabores do ano que não terminou em agosto

o ano não acabou em agosto. os meses seguintes tiveram sabores distintos: o amargo do medo, da competição, da desatenção alheia; o doce da amizade, da conquista, do sorriso perdido na praia de Ipanema; o azedo da decepção, da soberba, da mediocridade; o salgado do mar e das contas a pagar. 

e talvez o mais gostoso deles: o agridoce da descoberta de mim mesma.

eu tracei as minhas metas pensando em apurações insanas, plantões intermináveis, em rotinas e na falta delas, simplesmente porque eu sabia que isso me movia, me tornava útil, me fazia viva. mas não. não era nada disso. 

o combustível deixou de ser a superação intelectual. bobagem! 

o que move cada extremidade do corpo agora é muito maior do que a arte de contar histórias alheias. exatamente neste momento há uma compreensão das peças que faltam a ser completadas e que não serão o trabalho que trarão.

é essa delícia de brisa que mostra como é bom estar vivo, como é bom conhecer sorrisos e ser lida por eles. é apreciar o sol te acordar de manhã, estar apto a caminhar por um calçadão com cenário deslumbrante, sentir-se abraçada por Deus,  beber um chope gelado com um novo amigo, encontrar um conhecido no meio da rua, celebrar com os amigos, reconhecê-los, ser amada, amar, estar em família, desejar tem uma só pra você, cultivar admiradores, semear boas coisas, ouvir, respirar profundamente, cantar com uma criança, sorrir como uma. 

ver a beleza em coisas simples, não se esforçar para encontrar momentos de felicidade. eles simplesmente acontecem todo o tempo, basta perceber que os ciclos não terminam antes que você se permita cumpri-los. 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Maintenant



Vai passar: o sufoco, a tormenta, o receio, a desconfiança, a banda, a angústia, o desconforto. 

Assim como também passarão: a alegria,
                                            a satisfação, 
                                            o reconhecimento: a exaltação. 

O que fica está no meio e é chamado   

                                                    esforço. 


Soberano e diário. Maior que as preocupações, contratempos, contravenções, regras e padrões. Ele é o reinventar-se, o descobrir-se, o amadurecer. O esforço é um aluno exemplar, talvez seja um pouco autodidata, talvez aprenda com os solavancos, com as inquietações, com o zum zum zum no ouvido, com o batuque dos pés. Ele é um pouco daqueles que sabem que vão cruzar com o erro, a dúvida e o fracasso no meio do corredor, mas sabe exatamente que vai encará-los  feito um garoto cansado do bullying na escola. 

Ele tem esse vigor assim de menino novo, mas está criando maturidade. Virando gente, como diriam na minha terra. 

Esforço sabe que o tempo também vai passar pra ele e é por isso que pensa a vida é agora

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

One art



The art of losing isn't hard to master;
So many things seem filled with the intent
To be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
Of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
Places, and names, and where it was you meant
To travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
Next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
Some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
The art of losing's not too hard to master
Though it may look like (Write it!) like disaster.

(BISHOP,Elizabeth. 1977)