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sexta-feira, 9 de julho de 2010

Inabitável



"Eu era uma concha vazia. Como uma casa vazia, por meses sem ninguém - uma casa condenada - , eu era completamente inabitável. Agora havia algumas melhorias. A sala da frente estava em reformas. Mas era só isso - só um cômodo pequeno. Ele merecia alguém melhor - melhor do que uma casa em ruínas com um cômodo só. Nenhum investimento poderia me deixar funcional outra vez. "
Stephenie Meyer

domingo, 20 de junho de 2010

Sonhos, sonhos são.




Chegou sorrindo, me abraçou e ficou parado olhando longamente para cada gesto meu. Às minhas perguntas apenas um olhar moleque lançava, à minha irritação uma gargalhada leve, solta. Definitivamente, sabia como brincar com os meus sentidos. Me levou de um lado a outro da cama enquanto eu, envolvida em um sonho, sorria e amava. No meio da noite acordei incrédula. Como era possível alguém chegar tão perto estando tão longe? - pensei. Talvez não fosse um sonho, mas o lençol estendido do outro lado não deixava dúvidas de que eu estava só. Coragem ou covardia? Não sei. Mas, se apropriar do sonho de alguém de modo tão real é uma grande covardia, apesar de que admiro a iniciativa do assalto numa madrugada tão fria aos sentimentos mais íntimos do outro. O pior é que nem sei se o que me deixava zonza eram as indefinições dessa relação ou é só o meu estado sonolento entre os lençóis. O melhor mesmo é acordar com um sorriso no rosto e pouco a contra-gosto por ter despertado dos momentos incríveis que vivia minutos antes. Daí vem toda aquela sequência romântica de abraçar o travesseiro e ficar remoendo cada capítulo do sonho, reportando tudo aquilo à realidade, trazendo o sonho pro calor da minha manhã. Ah...


sexta-feira, 11 de junho de 2010

Datando o amor





Impressionante como a gente internaliza datas. E não digo apenas daquelas que têm um personagem-tema, um papai-noel ou um coelho com ovos qualquer. Datas daquelas que mudam a nossa rotina, o cabelo e as compras. Datas que marcam uma nova vida, um novo amor e assim, de tanto marcar, vai tornando a data velha, o motivo caduco, mas a gente tá sempre lá pra soprar as velinhas, aplaudir com emoção ou dedicar um presente à alguém. A verdade mesmo é que celebração é sempre uma constante. Fico pensando nessas datas que envolvem o amor. Sim, porque o amor se comemora, se data. Algumas pessoas o vivem.Dizem até que é possível senti-lo, veja só. Há quem diga que ele às vezes vai embora. Que rumo toma será? Imagine só estar parado no ônibus e dar de cara com ele, dar um tapinha nos ombros, dizer "sumiu, hein?" e logo emendar um "Oh, esse é o meu"? Entrar no coletivo e sorrir contente por ter encontrado o amor bem, saudável, até mais bonito. Mas o engraçado mesmo seria perceber que ele não fez falta, ou que já arrumou um lugar pra morar e, por isso, pega outra rota, diferente da minha. É possível que algo assim aconteça com alguém e que a pessoa ainda date o encontro. " - Hoje, encontrei o amor na esquina." Eu, contudo, prefiro ser daquelas que acreditam que é possível vivê-lo. 

sábado, 22 de maio de 2010

Dreams come true




Sou eu quem te acorda, mas não sou quem o coloca pra dormir. 
Não pense que me acostumo com isso ou que talvez isso seja fácil pra mim. Não, não é. 
O que me conforta talvez seja saber que você, melhor do que eu, guarda detalhes da nossa história. 
Parte disso me alegra e dói. Alegra por ver que há algo tão vivo e latente em você quanto em mim. 
Dói porque sei que alguns dos milhares de quilômetros dessa nossa distância fui eu quem não quis rodar. 
Nessa noite, porém, farei diferente do que apenas mentalizá-lo em meus sonhos. Vou, enfim, cumprir a promessa de te ligar de madrugada, mesmo que alguém já o tenha colocado para dormir. Direi que estou com saudades que não aguento mais codificar nossas conversas e que pra mim nada mais importa que não seja reconstruir cada pedaço esquecido e guardado da nossa história. 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Sobre um forte dilema




Às vezes me bate aquela vontade de ter um problemão. Daqueles que tiram o sono, fazem perder a conta do dia do mês, das horas. Do compromisso. Um problemão daqueles que fazem o cabelo cair, as unhas enfraquecerem e a gente murchar. Porque problema pequeno é chato. Desgasta. Ele não tira o sono de vez, mas fica martelando, pulsando na cabeça. Muda o humor, acaba com o dia pouco a pouco. Mas é assim: de-va-gar. Sem pressa ele vai consumindo sua paciência, seu viço, seu tesão. Vai amontoando tudo numa bolha. Problema é aquela coisa difícil de explicar, como quem derramou o suco na mesa ou como o colar da sua mãe arrebentou dentro do porta-joias. Problema assim que faz pensar, que é quase tortura. Cansa. É por isso que, vez ou outra, bate uma saudade de ter um problemão mesmo, daqueles. Perder a noção do juízo, sair por aí, encostar em um qualquer e desafogar cada um dos ranços num soluço de frases estúpidas. Gritar mesmo, botar pra quebrar. Ter os piores problemas do mundo, enfrentar uma batalha cada dia e ficar aí de bobeira esperando alguma coisa grande estourar. Depois sair catando pedaços, reunindo tudo numa caixa, jogar do alto do morro e ver a sua conquista rolar. 

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sinto que o mês presente me assassina



Mário Faustino
Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.





Era uma tarde que já ia morrendo e enquanto aguardava o ônibus que havia se esquecido do ponto, do tempo e dos passageiros, quando ouvi na coluna Devaneio, de Juca de Oliveira, este poema. É incrível a capacidade dos poetas, amantes e literatos em lidar com as palavras numa construção tão bela e própria. Gostei muito do que ouvi, espero que compartilhem. 

quarta-feira, 31 de março de 2010

Sobre os brios da soberba



É difícil pre'u me despedir, sem nunca ter chegado. Sem ter percebido a capacidade de me acolher dos seus braços. Nunca ter me feito sua de fato. 
O mais complicado porém é confessar tudo isso sem dizer nada. É reconhecer que o meu orgulho me mantém parada e firme na minha completa arrogância.
É pior ainda não ter seu afago, aquele mesmo que eu nunca senti. Ou não quis. Pensar que nada mais justifica o seu bem querer a mim mesma, uma vez que sou eu quem pede para ser deixada. A palavra que mais admiro é muda: o silêncio. E é talvez por isso que eu nunca tenha sentido sua respiração quente, seu peito febril e seu amor incontrolável. 
Me perdia sempre no vazio, no meu mudo, surdo e calmo quarto. Enquanto você contava problemas, soluçava façanhas e eu com o olhar fixo no branco gélido da parede. Se eu pedir baixinho, se mendigar cura, se rezar todas as noites e você prometer que tudo isso passa, a prepotência, a insegurança, o medo e o vazio, eu juro que tento me entregar. Se me ajudar a vender, doar, erradicar todo esse orgulho que ruboriza, dá viço e tom a toda a minha petulância, juro que tento me entregar. Mas que fique claro, não poderei me despedir, falar ou prometer coisas assim vãs sem que tenha me mostrado o poder de seus braços. 

P.S.I.U: Esse texto foi produzido especialmente para o Impressões Digitais, da gentil Dani Pedrosa, em comemoração pelos 10.000 acessos do blog. Parabéns, Dani. Agradeço o convite, entre outras coisas, espero que você também possa contribuir com esse nosso espaço aqui.