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segunda-feira, 14 de outubro de 2024

Oh besta tinada!

 


 

Numa dessas tardes, saiu esbaforida como quem tivesse se esquecido do compromisso firmado há semanas:

A consulta médica,
O retorno ao dentista,
O café com a amiga, sumida desde que casou.

A verdade é que não tinha marcado obrigação nenhuma com outrem.
Sua ânsia era do encontro com a rua, com os sons dos carros e motos, com os grunhidos inexplicáveis e indescritíveis da cidade. Ela queria o cheiro dos churros da esquina e se esbaldar nas cores daquele lugar, lambendo os beiços de satisfação. 
 
Ela tinha a pressa de quem não quer perder o ônibus.
Caminhava com as ganas de quem vai encontrar o novo amor. 
 
A fúria dela era tida como grosseira por alguns.  
Os vizinhos notavam a impaciência no apertar do elevador e no sapateado pelos corredores. Ela fingia gentileza, mas nem fazia questão de educação ou diplomacia. Estava atrasada demais. 
 
Notou, inclusive, que firmava o maxilar com força.
Lembrou das recomendações da dentista, da terapeuta.
 
Ela saiu tão atordoada que nem percebeu a falta de documento e dinheiro. 
Sentiu foi o vento metendo-lhe as fuças, desgrenhando os cabelos já nem tão fartos assim. E riu, meio besta. 
 
Sem ter destino algum, cortou por uma esquina e foi reparando nas árvores, nos cachorros e no dono da banca varrendo a calçada.
Ela tinha uma pressa tamanha que nem leu as manchetes ou percebeu que agora vendiam açaí e cerveja na banca de jornais. Se tivesse notado entenderia que fazia mesmo sentido a diversificação do portfólio. Quem ainda lê no papel? 
 
O sinal logo abrira e que bom, pois nada tinha de paciente para esperar as luzes mudarem. Foi tão ligeira que o motoqueiro buzinou agressivo, como se a culpa fosse dela, e não dele. O caminho estava livre pra ela.
 
E foi seguindo no rumo certo de quem não fazia ideia de onde ia. Os passos firmes denunciariam a qualquer um que estava atrasada, apressada pra chegar.
Quando se deu conta já estava bem longe de casa e mais perto de si. 
 
Sorriu. Dobrou a esquina como quem passara a tarde toda num parque num domingo qualquer.
Era segunda, mas aquele dia era dela, primeiro.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

good fit

 


I’m exhausted and I haven’t done anything. 

I’ve been crying since you left. 

Not that I want you back. 

I want myself. 


I don’t know why I worry so much. 

In the end, everything will be alright - they say. 

Is it the end yet?


In one day I feel empowered and full of energy. 

Next, I want to cuddle with myself. 

I want to cry my heart out. 


I think of my grandma and how she was always smiling. 

Those are the memories I hold close. 

She is bipolar, schizophrenic - they say. 

I say she is Gemini. 


Women are cyclical they say. 

Am I walking in circles?


My therapist told me to be light. 

I thought I was light. 

We all are - they say.


segunda-feira, 12 de abril de 2021

Pra ter fé

Certa vez me disseram que faz bem ir dormir pensando no que te anima para o dia seguinte

Ultimamente tem sido café

Nem tão preto e forte, geralmente desejo um café caramelo com leite de amendôas.


Me estranha ser café o que me faz ir pra cama feliz

A certeza de que no dia seguinte terei café. 


Daí, de repente, penso que não é o café, mas o simbolismo.

É o carinho matinal de encontrar a bebida quente feita pelo marido, 

é ter uma casa segura e alegre. 


O café é a materialização de um sonho,

é quando acordo que começo a sonhar.

Ancestors Mug by Bash Art. Available here.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Mesmices


Dez anos mais experiente e ainda sofro de "e Ses". O presente nunca parece me preencher e ficou retomando fantasias do passado como se naquele tempo eu tivesse, de fato, sido feliz. 

O que me falta na verdade é um amigo capaz de me dar choques de realidade e me lembrar que nem tudo eram flores "naquele tempo". 

E se a gente ainda estivesse junto?
E se as coisas tivessem sido diferentes?
E se eu tivesse sido mais paciente, amável e tolerante?
E se você tivesse sido mais paciente, amável e tolerante?

Do que importa?
O que está feito assim está. 

Melhor deixar ser como será. Seguir e viver. 
Só gostaria de arrancar do peito essa angústia que se confunde entre depressão e ansiedade.


quarta-feira, 17 de outubro de 2018

my married merry christmas

Foreplay started at the night before 
He bought Christmas balls for our tree
And waited for me in the front door
Huge hug, stocking Santa hat and chocolate

His touch was warm and make me comfortable after the long day 
I took a hot shower while he watched his cartoon 
Cute, he asked me if he could watch another one 

We decorated our tree together 
We were blessed
Happy in that moment 
We were everything we want to be

We slept well
He woke me up with coffee
Ready to have me 
Ready to feel how wet I was 

He licked me fast I asked him to slow down
He wanted me 
He had me
Ho! Ho! Ho!
Oh! Oh! Oh!
... I finally understood the joy of a Christmas morning
My holy married merry Christmas! 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

On Ocean & Alamitos

Wait! Wait! Wait! 
It might have been only 30 seconds but for her... it was an entire life. 

Wait!

Wait!
Wait! 

On that cross walk she noticed cars coming and going. 

People listening to music, late people and others into themselves, just like her at that moment. 

Lost in her own mind. 

Wait.




Wait.




Wait! 

What was she waiting for anyway?
A man? Her life purpose? 

Wait. Wait. Wait. 
Walk sign is on. 
It might be a sign to walk again. 
Move on. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

process

4 a.m: Sex
7 a.m: — Bye, now.
Noon: — Good luck!

Fist month: party, friends, sex, beer, wine & weed.
Second month: body & mind. 

Three questions:

— Is it bad timing?
— Was all that real?
— Can someone new be just a new me?

Internal archive of us

I had an idea for a Black Mirror episode. Somewhere in the future, lonely people would be able to download their social apps histories to recreate memories. So, you could go to all our Voxer's messages and select the ones that were meaningful. There would be companies for that. Imagine that chubby dude's face going through all our shit and trying to get the best out of it while eating a greasy pizza and looking at his cat — of course, he works from home (That's the future anyway, right?). He would laugh, cry, get angry and be confuse with all our talking.

Couples could use these companies services to pay homage on weddings, milestone anniversaries parties...Perhaps someone would like to pay to listen to someone's love again. Maybe that would reignite memories and make life a little less tough. Imagine this service for someone who lost their loved ones. 

You are probably calling me morbid by now. Crazy. Lunatic. (Say that in a French accent)
I just think Black Mirror could get something out of the idea. All the drama of real people's life edited in a podcast to listen on a road-trip. 

The longest and deepest trip to your internal archive of us.

sábado, 9 de maio de 2015

extenuante

Sabe clichê? Lembro de sempre ter visto em filmes, propagandas, anúncios aquela clássica cena da 'vida adulta'. Pessoas que acordam, trabalham, voltam para casa e dormem. Estou consumida por essa sensação de ciclo constante, uma continuidade insuportável. Onde está o frescor?

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O alienado não escreve. Escreve? Escreva-me

Ajudando o sistema, estando dentro dele. Não tendo tempo para pensar. Para comer. Para refletir. Para sentir o momento.

Às vezes ele simplesmente se apossou de mim, consumi o tempo sem experimentá-lo, o momento passou por mim e eu nem me dei conta, foi como um sopro de vento que a gente só repara quando já passou. 

Só que o dia a dia me obriga a seguir com o fluxo consumindo informação, estando conectada, estando hiperconectada. Eu não consigo respirar. 

E se a bolha for o melhor lugar? 

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Perdas e ganhos

Entrar numa lacuna da mente. Caminhar por áreas desconhecidas dentro de si mesmo. Um universo. O meu corpo é um mundo. Mudo — mas que fala. Eu exploro com medo. Como o autoconhecimento pode ser assim tão assustador? Seria esse um medo de me decepcionar comigo mesma? Imagine a frustração de descobrir ser o que não se quer. O que renega. O que condena. O que perturba. O que mutila. 

Qual é o problema com a alegria? Ela não precisa mesmo ser um problema. Precisa?
Às vezes falta o ar. Uma perturbação que assusta. Estou me perdendo ou me ganhando?

domingo, 29 de março de 2015

A Marca Humana, The Human Stain

Este talvez tenha sido um dos livros que mais marcou a minha formação literária até agora. Senti-me compelida a esgotá-lo e ao mesmo tempo a nunca terminá-lo. O que Philip Roth faz com seus pensamentos transcende o poder da escrita, mas conversa com seu íntimo. 


Ao se dar conta de que não tinha mais seu pai para circunscrevê-lo e defini-lo, sentiu-se como se de repente todos os relógios à sua volta tivessem arado e fosse impossível saber que horas eram. (Página 141). 

Ele adora segredos. O segredo de ninguém saber o que se passa dentro de sua cabeça; ele podia pensar o que quisesse que ninguém jamais descobriria. 

Ela não era poeta, comentou com um riso; era somente uma pessoa saltando por dentro de um aro em chamas. (Página 150 e 151). 

O modo como a visita poderia ter terminado — a conclusão que a realidade havia vetado em caráter definitivo — era a única coisa que ele conseguia pensar. Aturdido ao constatar, que não havia conseguido esquecer dela, nem ela dele, caminhava e compreendia algo que antes só havia entendido em suas leituras de tragédia grega clássica: como é fácil a vida virar de um lado em vez de virar para o outro, como é acidental o destino de uma pessoa... em contrapartida, como o destino pode parecer acidental quando as coisas não podem deixar de ser o que são. Ou seja, Coleman caminhava sem compreender nda, ainda que imbuído da ilusão de que teria compreendido metafisicamente alguma coisa muitíssimo importante a respeito da sua teimosa decisão de determinar seu próprio destino se...se fosse possível compreender essas coisas. (Páginas 163 e 164) 

"Se ele bota no cu dela, ele garante a lealdade da moça. Seria uma espécie de pacto, um pacto entre os dois. Mas não houve esse pacto." (Página 190)

"É o cu que gera lealdade" (Página 192) 

Porque não sabemos, não é? Todo mundo sabe...Como é que as coisas acontecem do jeito que acontecem? O que está por trás da anarquia da sequência de eventos, as incertezas, os infortúnios,  incoerência, s irregularidades chocantes que definem os assuntos humanos? Ninguém sabe, professora Roux. 'Todo mundo sabe' é a invocação do clichê e o início da banalização da experiência e, a seriedade e o tom de autoridade que as pessoas adotam ao se repetir esse clichê é o que é mais insuportável. O que sabemos é que, ao contrário do que se diz o clichê, ninguém sabe nada. Não se pode saber nada. As coisas que você sabe, você não sabe. Intenção? Motivo? Consequência? Significado? É surpreendente, quantas coisas desconhecemos. Mais surpreendente ainda é o que passa por conhecimento. (Página 266)

"Não fica achando que o negócio é o amanhã. Fecha as portas todas, antes e depois. Todas as maneiras sociais de pensar, fecha tudo. Tudo isso que a maravilhosa sociedade está pedindo? O nosso lugar na sociedade? 'Eu tenho que fazer isso, eu tenho que fazer aquilo? Manda tudo à merda. O que você tem que ser, o que você tem que fazer, essas coisas, isso é o que mata tudo. Eu posso ficar dançando, se o barato é esse. O momento secreto — se é isso que é o barato. A fatia que se ganha. Aquela fatia de tempo. É só isso, es espero que você entenda. 

— Dança mais." (Página 292)

Tem muita coisa que eu não sei direito, mas uma coisa eu sei: ficar até o dia seguinte tem algum significado. O que as putas lhe ensinaram, a grande sabedoria das putas: 'Os homens não pagam para a gente dormir com eles. Eles pagam pra gente ir embora'. (Páginas 300 e 301) 

Ela precisa entender a intertextualidade. Isso quer dizer que ela é uma fraude? Não! Isso quer dizer que ela é uma inclassificável. Em outros círculos, isso até lhe conferiria uma certa mística! Mas um fim-de-mundo atrasado como aquele, basta ser um pouco inclassificável para que todo mundo se sinta incomodado. (...) Ser inclassificável aqui, ser alguma coisa que eles não conseguem entender, é condenar-se a um tormento constante. (Página 344)

Despatriada, isolada, distanciada, confusa a respeito de tudo o que é essencial a uma existência, num estalo desesperador de anseio cego e por todos os lados cercada de forças antagônicas que a vêem como o inimigo. E tudo isso porque ela decidiu com determinação buscar uma vida que fosse só sua. Tudo isso porque teve a coragem de se recusar a aceitar a visão convencional de si mesma. Ela imagina ter subvertido seu próprio eu num projeto admirável de autoconstrução. A vida é uma coisa um bocado mesquinha, por pregar tamanha peça nela. Bem no fundo, é uma coisa muito mesquinha e vingativa, que impõe destinos que não obedecem às leis da lógica, porém seguem um capricho perverso de antagonismo. Quem ousa se entregar a sua própria vitalidade termina se vendo como se nas mãos de um criminoso implacável. Vou para a América para me tornar autora de minha própria vida, diz ela; vou construir a mim mesma fora da ortodoxia imposta pela minha família, vou lutar contra essa ortodoxia, vou levar ao limite a subjetividade passional, o individualismo no que ele tem de melhor — e eis que ela termina sendo personagem de um drama que foge ao seu controle. Termina autora de nada. Ela sente o impulso de dominar as coisas, e a única coisa que termina sendo dominada é ela mesma. (Páginas 346 e 347)

Pensando que o motivo pelo qual ela não consegue arranjar um homem americano, e sim que ela não consegue compreender esses homens e que nunca vai conseguir compreendê-los é o fato de que ela não é fluente. Por mais que ela se orgulhe de sua fluência, por mais fluente que seja, ela não é fluente! Eu acho que os compreendo, e compreendo, sim; o que eu não compreendo não é  o que eles dizem, e sim o que eles não dizem, tudo o que eles não estão dizendo. (Página 350)

Embora o mundo esteja cheio de pessoas que andam por aí achando que sabem perfeitamente tudo a respeito de nós, o fato é que nunca se chega ao fundo daquilo que se desconhece. A verdade a nosso respeito é infinita. Tal como as mentiras. Preso entre uma coisa e outra, pensei. Denunciado pelos pretensiosos, escorraço pelos santarrões — e por fim exterminado por um louco furioso. Excomungado pelos salvos, pelos eleitos, pelos eternos evangelistas dos costumes do momento, e por fim eliminado por um demônio implacável. As duas exigências humanas encontravam seu ponto de encontro nele. O puro e o impuro, com toda a sua veemência, em ação, tendo em comum a mesma necessidade do inimigo. Cortado ao meio, pensei. Cortado ao meio pelos dentes hostis deste mundo. Pelo antagonismo que é o mundo. (Página 398)




O que é o Brasil?

Leitura fácil e que permite boas noções sobre esse vasto país. Roberto DaMatta antes de tudo nos situa de que no Brasil há uma clara divisão da compreensão de três coisas: a casa, a rua e o trabalho. 

A rua é o local do trabalho, do Estado , das leis e também da surpresa, da tentação e do lazer. Casas são habitadas por famílias cujo núcleo é constituído de pessoas que possuem a mesma substância. A mesma carne e o mesmo sangue que legitimam um nome comum e sugerem interesses, tendências, bem como um destino compartilhado. O mundo exterior ou "público", medido pela competição e pelo anonimato, onde as coisas são imediatamente trocadas por dinheiro, é substituído por favores e presentes cujo retorno chega a longo prazo e sem cobranças, naquilo que chamamos de confiança, de amor e de lealdade, esses valores maiores da nossa concepção de parentesco. Em casa somos marcados por supremo reconhecimento pessoal. Como a casa não é governada pelas leis escritas do Estado, que sempre mudam, ela tem uma referência muito mais confiável do que as instituições públicas. Nossos almoços de domingo continuam os mesmos, ao passo que mudamos muitas vezes de regime político, de moeda... (Páginas 14 a 27)

A mistura, a farofa brasileira

No século XVII, Antonil escreveu: "O Brasil é um inferno para os negros, um purgatório para os brancos e um paraíso para os mulatos". No Brasil, o ambíguo é reinterpretado como um dado positivo na glorificação da mulata e do mestiço como sendo, no fundo, uma síntese perfeita do melhor que pode existir no negro, no branco e no índio. . O Brasil ultrapassa os dualismos nele contidos. Entre nós, a lógica exclusiva do dentro ou fora; do certo ou errado; do homem ou mulher,; do casado ou separado; de Deus ou Diabo; o preto ou branco não ajuda muito. Pois sempre existe um terceiro termo ou um elemento mediador. Isso é muito claro na discussão do nosso racismo, orque entre a oposição negro e branco há uma multidão de tipos intermediários e não um espaço vazio, como no caso dos sistemas discriminatórios sul-africanos e americano. Nos Estados Unidos, na lógica de Antonil, o mulato é a revelação corporificada do pecado e de uma vergonhosa intimidade entre as camadas sociais iguais, mas que deveriam permanecer separadas. Do mesmo modo que as leis de uma sociedade igualitária e liberal não admitem o "jeitinho"ou o "mais ou menos", as relações entre os grupos sociais não podem admitir a intermediação — a negação do indivíduo que é o centro legal e moral do sistema. Daí, a nossa crença de que não temos preconceito racial, mas social, o que tecnicamente é a mesma coisa. (Páginas 21 e 23)

Comida e alimento

No Brasil, comer diferencia-se do mero ato de alimentar-se. Os americanos, que "comem para viver", inventaram o fast-food (alimento rápido) e, assim, comem em pé, sentados, com estranhos ou amigos, sós ou acompanhados. Mas, nós, brasileiros, que não esquecemos o viver para comer, sabemos que nem tudo o que alimenta é gostoso ("tem paladar") ou é socialmente aceitável. Com isso sabemos que nem tudo o que é alimento é comida. Alimento é tudo aquilo que pode ser ingerido para manter a pessoa viva; comida é tudo o que se come com prazer, de acordo com as regras mais nobres de preparo, serviço e comensalidade. O alimento é a moldura; mas a comida é o quadro, aquilo que é valorizado dentre os alimentos; o que deve ser saboreado com os olhos e, depois, com a boca, o nariz, a boa companhia e, finalmente, a barriga. (Páginas 29 a 31)


The Question Answered


What is it men in women do require
The lineaments of Gratified Desire
What is it women do in men require
The lineaments of Gratified Desire
BLAKE, William. (1757 - 1827)

Fúria existencial

Ando num vazio imenso de conexões que gritam, clamam, imploram por completude. 
Como posso ter demorado tanto para compreender essa percepção, que aliás, não compreendo. É tudo linguagem, é diálogo e silêncio. É relação. É uma fúria enorme, uma vontade de entender o que me liga ao outro, o que nos liga de alguma forma, em um ponto, em uma medida, em uma dança. Uma música? Naquele momento. Naquele exato momento, você me viu? Você me entendeu como eu acho que entendi você? Você entende a catarse de estar envolto em milhões de compreensões e lógicas, e dúvidas, e pensamentos, em milhões de energias e espasmos de compreensões. E que se dane a linguagem! Eu me sinto consumida por uma fúria, um apetite voraz, uma vontade intensa de entender o que ocorre. O que passa aqui? O que estava acontecendo no exato momento em que você se ligou a mim. Para onde vamos? Estaremos satisfeitos conosco? Transcender. Criar. Evoluir. O que é tudo isso afinal? A vida?

quarta-feira, 25 de março de 2015

Você devia ter sido o primeiro homem da minha vida

Eu duvido que algum homem rejeite a oportunidade ser o primeiro de uma mulher. O primeiro a dizer 'minha princesa', a cortejar o carinho dela, a pegá-la no colo, a apresentar os primeiros sabores, a atender aos seus chamados, a compreender seu choro, ampará-la. O primeiro a mostrar-lhe o novo, apresentá-la aos seus pais, aos seus amigos. Fazê-la parte da sua vida. 

O que aconteceu com você? Acho que você simplesmente não quis ser o primeiro da minha vida. Talvez tenha sido a pressão, você não sabia lidar com algo tão novo, talvez tenha sido covardia mesmo. Falta de coragem — é isso o que eu penso que foi. Embora um homem bronco, criado na roça, criado para ser "homem", faltou bater no peito e honrar seus compromissos quando lhe exigido fora. Foi medo?

Você não quis enfrentar a todos os que estavam à sua volta para estar comigo. Não aceito o "não pode" — você não quis. 

Cresci com minha mãe e minha vó. Elas me ensinaram cedo que "quem quer faz, quem não quer manda". Se você quisesse estar comigo, assim como quis naquele momento extremo de prazer e excitação no qual eu comecei a nascer, você estaria. 

Às vezes me pergunto se você tem alguma dimensão de como a sua renúncia e ausência impactaram no modo como eu sou e em como eu me relaciono com os outros — especialmente com os homens. Não, você não faz a mínima ideia. Você sequer me conhece. 

Você não quis me conhecer. Afinal, você não quis fazer parte da minha vida ou de nada disso. Quem me vê exalta minha inteligência, beleza, coragem, educação. Reforçam a mulher forte em que me tornei. Para mim tudo isso é o puro reflexo das mulheres que me criaram. E, não, não vou agradecer a você por ter ao se renunciar do papel que lhe cabia ter me embrutecido pela vida. 

Quantas vezes eu quis entender o que é almoçar em família, domingos, viagens. "Como foi na escola? Quem é esse garoto? Quem é a minha menina?". Eu cresci na defensiva. Eu acabei criando um modo conturbado de me relacionar com os homens. Eu fui devota a eles. Eu me anulei por eles. Eu quis satisfazê-los e quase esqueci de mim mesma. 

Havia (e há) uma razão para tudo isso. Eu temia que eles, como você, fossem embora. Ou nunca ficassem. Ou se cansassem de mim. Ou sumissem. Hoje é bom compreender tudo isso e me amar um bocado mais. É bom não ter que me desafiar para provar do que sou capaz para amar ou para provar que posso ser amada. Eu posso e eu sou. E é uma pena que você não tenha sido o primeiro homem da minha vida, pai. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

autocorrect

Às vezes a Pollyanna cansa.
A Ana que canta, dança e odeia.
Cobrança, cobrança, cobrança.
A Ana que ama também esperneia.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

paradoxo

Será que aos poucos é normal ficar ranzinza com tudo algumas coisas? Ou aos poucos a gente deveria ficar mais tolerante, mais paciente, mais a par de como o mundo funciona?

Entrar nesse equilíbrio é algo demorado ou lento? Se questionar sobre isso é amadurecimento ou ingenuidade? Não são perguntas retóricas. Eu quero mesmo respostas. 

É um paradoxo, veja bem. Já reparei que ter um cronograma, um planejamento super vale à pena. Já notei também que, vez ou outra, as coisas mudam de ordem, saem do schedule.

Não tem dessa de dizer que a gente não controla - controlamos, sim. O 'problema' é que todo mundo controla.  Cada forcinha no Universo vai fazendo a diferença no bolo. Daí, se ele sola, meu filho... tem o dedo de todo mundo. 

Minha mente está cansada de ficar matutando tanta coisa diariamente. Um pouco do passado, um pouco do presente e o futuro lá. São tantas telas. Tanto brilho. 


domingo, 9 de novembro de 2014

Na dela

Na penumbra de uma tarde chuvosa de sábado deitada com os cabelos molhados em seu travesseiro, sem que ninguém se a incomodasse ou perturbasse com aquilo. Já era uma sensação libertadora - um pequeno ato de independência. Uma amostra de que era dona de si.

A fumaça não a incomodou, ao contrário. A sauna criada no cômodo extenso até provocava um certo prazer, uma ambientação erótica que muito combinava com aquela sensação de autocurtição que procurava. Uma prova de que era dona de si.

A escolha das músicas talvez até pudessem ter alguma influência. So what? A vida é feita de trocas. Todos somos influenciáveis, um pouco ingênuos e desconfiados na medida que cabe a cada um. Sua autoconsciência de suas escolhas era uma garantia de que era dona de si.

O próprio toque uma comprovação de seu poder ilimitado sobre si mesma. Não importa de onde a inspiração venha, onde ela se fantasia, onde ela aprende ou aprimora suas técnicas. Dona de cada centímetro, sem que ninguém a chame de sua.

É preciso muito sim. É preciso enorme uma compreensão da responsabilidade que é amá-la. Ela reflete um pouco sobre o que lhe é dito, sobre os rumos que as coisas vão tomando. As escolhas que ela faz são prova da expectativa que ela deposita em algo que pode ser a extensão de uma aventura. Um prolongamento. Heaven only knows.

Ela tem uma mente aberta e sempre se permitiu. Às vezes se condenou, às vezes se culpou, sim. Natural. O mundo é hipócrita demais e sua autoconsciência sobre seus desejos e pulsões já a fizeram pensar que deveria parar, mas ela é maior do que isso. Viveu cada segundo de suas vontades como lhe era permitido e isso requer inventividade.

Criar sempre foi algo que ela dominou bem. Ela cria sua própria independência, a seu modo.

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A caminho do trabalho

Quando eu vejo o céu limpo sem uma nuvem se quer é como se eu acreditasse um pouco mais em Deus. 
Parece que Ele deixou tudo assim claro, pintou tudo num azul sereno, como um azul tem que ser de verdade. É como se o mundo inteiro estivesse envolto num manto onde só há paz. Porque a verdade maior é essa: só deveria mesmo haver paz. E amor.