Eu queria mesmo acordar, amor. Você já está indo e nem lembrou da sua escova de dentes no meu armário do banheiro, apenas fez questão daqueles filmes antigos. Você já foi e as suas chaves continuam no meu chaveiro. Talvez eu até tenha te acompanhado, mas prum lado que você não foi ou só esteve de passagem. Queria ter notícias suas, amor. Saber do seu violão, dos seus domingos, dos seus primos. Sabe, faz um tempo que eu não acordo num sobressalto e animada para preparar o nosso café. Eu queria mesmo acordar.
Já pensou, amor, se um de nós tivesse arrasado o projeto do outro? Que desamor. Veja, querido, a que ponto chegamos. Amando tanto soltamos as mãos, deixamos o outro partir. E ir.
Sabe de uma coisa, amor, por mais que você demore só alguns meses, garanto que o meu sofrimento não está parcelado. Ele é intenso, dói que é uma beleza. Quem sabe ele não sangre, não mate ou morra? Quanto a isso, vá tranquilo. Meu choro é certo.
Mas, caso se passem anos e você não retorne, terei que pegar outras parcelas de sofrimento e você sabe como é, mulher se endividando é um problema. Mas, tudo bem. Eu me viro, não se preocupe com isso também. Uma coisa, porém, eu lhe digo, amor: depois de um ano, você não vindo desisto de acordar e de te esquecer.