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quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Vigília


Peguei aquela taça de vinho pra ver se as palavras desciam. Nada.

Deitei no chão frio pra aspirar a poeira.

Esqueci – por um momento.

Digitei seu número 574 vezes.

...deixei a porta aberta.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Improvise


"Te perdôo
Por fazeres mil perguntas
Que em vida que andam juntas
Ninguém faz"
Mil perdões / Chico Buarque

Não espere. Nem um sorriso, nem um abraço. Nem um quilo de açúcar e meio de carne. Não espere amor ou mesmo carinho. Não espere na porta, nem com o vinho. Não abra a janela e me olhe saindo. Não me desvende, nem me descubra. Não me puxe a coberta, nem leia meus livros. Não me incomode, não faça barulho. Não me alimente, não deixe vestígios. Não se despeça e não peça mais nada. Não adormeça, não caia na sala. Não queira leite, nem salaminho. Não queime o cigarro no nosso ninho. Não diga mais nada. Não me cubra de pontos. Não me deixe engasgada, não sonhe comigo. Não me conheça. Não queira alento. Não me obedeça. Não espere mais nada. Improvise uma desculpa qualquer e volte pra casa.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Consagrando a verdade


Descobri que minha obscessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simulação inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, e sim como reação contra minha negligência; que pareço generoso para encobrir minha mesquinhez, que me faço passar por prudente quando na verdade sou desconfiado e sempre penso o pior, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que ninguém saiba como pouco me importa o tempo alheio. Descobri, enfim, que o amor não é um estado da alma e sim um signo do zodíaco.
Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.
Me pergunto como pude sucumbir nesta vertigem perpétua que eu mesmo provocava e temia. Flutuava entre nuvens erráticas e falava sozinho diante do espelho com a vã ilusão de averiguar quem sou. Era tal meu desvario, que em uma manifestação estudantil com pedras e garrafas tive que buscar forças na fraqueza para não me colocar na frente de todos com um letreiro que consagrasse minha verdade: Estou louco de amor.

*Trecho retirado do belíssimo Memórias de minhas putas tristes, de Gabriel Garcia Márquez. Páginas 74 e 74.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Invasões


Espero que não se importe de eu te falar as coisas assim tão depressa, de colocar todos os meus planos na mesa e esperar uma resposta sua. Desculpe falar tanto de nós, quando você já está completo sem parte de mim em você, mas é que eu não aprendi a ser otimista. Espero que não se importe com minha memória fraca, que não me permite lembrar de coisas lindas que você se recordava há um tempo. Da música que tocava naquela noite, da primeira vez em que brigamos ou do dia em que quase fomos um do outro. Não se importe se eu invadir a sua vida com e-mails, poemas e textos que não te dizem muito, mas que é certo te machucam pela leitura. Encontrei uma foto velha e fiquei olhando para ver se o seu sorriso já mirava para mim, ou se suas pernas tendiam para o meu lado, se o seu olhar tinha um quê de paixão. Mas que nada! Uma foto inocente, apenas duas crianças sentadas. Apenas eu e você. Quando fiz uma seleção das coisas que não lembro mais...achei você em uma brincadeira daquelas de verdade ou consequência e seus amigos pedindo a nossa felicidade. Lembrei do reveillon que não tivemos. Daquela ideia do livro. Lembra? Iríamos escrever nossa história, veja só! Talvez só nossos filhos e aquele amigo mais próximo leriam a trama até o fim. Mas também pra quê, né? O fim eles também já saberiam. Talvez apenas nós leríamos a nossa história, você seria meu leitor eterno. E nessa leitura diária renovaríamos os contos, aumentaríamos os beijos, abraços e carícias, acrescentaríamos rivais, despiríamo-nos  mais... 
Desculpe te fazer ler tudo isso. É mesmo uma insistência minha querer sofrer e  me guiar por desvarios. Sei que já não adiantam mais cartas, livros, e-mails ou fotografias. Nada disso poderá reunir aquela história que começou antes mesmo que disséssemos  - Quer brincar comigo? Mas é bom que não você não saiba que me alimento em você todos os dias, depois que se despede e fico ainda com a janela aberta. É como se você estivesse vendo tudo o que faço, as músicas que escuto e o que passa em minha cabeça. Eu já te enchi de pedidos, de desculpas e de cartões de aniversário. Se ainda tiver algum, por favor, mande-me pelo correio ou scanea de uma vez e manda. Manda mesmo assim, não importa o meio. Não importa o fim.É só para acrescentar em um livro que um dia ainda vou escrever e me resguardar de que não inventei o personagem que faz par comigo.Não vou lhe cobrar direitos pela história e espero que faça o mesmo, deixe-me invadir em paz nosso passado e enfiá-lo nas páginas desse livro. Deixe de me dar desculpas, me repreenda, diga que não posso por fim a uma história que depende de você. Mostre-me que não escrevo só, que está comigo. Ou melhor, queime tudo cartas, presentes e aquela fotografia do seu mural. Mas saiba que de todo o brilho que mantenho nos olhos permito que uma faísca se manifeste, para a certeza da sua existência e não se esqueça que há sempre alguém torcendo para que tudo se queime, se acabe e aí sim, o fim.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Sonho afoito


Hoje eu te vi, dormindo e sem boné. Quase não acreditei, ah é, era um sonho. Você ali largado num sofá, tão belo. Aquele seu jeito de moleque largado, tranquilo. Não me contive, num lance me joguei aos seus pés (e pernas) e acordei-o. Assustado, olhou-me, porém, com afeto. E eu, eufórica, atrapalhei aquele momento de olhares e atropelei-o com explicações. Inúmeras, vãs, mas que pra mim faziam todo sentido e seriam motivo de uma longa briga, em que você me cobraria mil coisas. Você me conhece...
Me puxou para cima do seu sofá, não disse absolutamente nada e me abraçou com seus braços e sorrisos. Não consegui me desvencilhar de seu toque, aquele cheiro de quem dormia a tarde inteira, do afagos plenos, dos deslizes que nos divertiam sempre.
Precisei conter meu envolvimento, você já espera por isso, e não me esperou nem me levantar...já estava longe, na sua cidade conturbada, no metrô, nas avenidas. Quando despertei olhei pela janela e vi as montanhas ali, paradas como sempre. Me protegendo, como sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Da velha infância...


O que dizer sobre os meus pensamentos longínquos e constantes em um lugar não tão distante assim. Do tipo “quando alguma coisa acontece no meu coração...”.
E não é apenas Caetano que me inspira, mas algo que vem de longe, lá de longe.
Dos tempos das brincadeiras de menina, das visitas à família nos finais de semana, das risadas e fotos, dos cartões de aniversário. Das piadinhas pela janelinha nos dentes, das chateações típicas da idade. Da amizade. Do reencontro, da descoberta de um novo sentimento, dos encontros, dos bancos da escola, das festas, das cartas e textos, das músicas e da nossa Velha Infância.
Um turbilhão de emoções e sentimentos, que por muito tempo incompreendido fez de nós pessoas opostas - ou não. Buscamos a nós mesmos por diversas vezes e a sua prepotência (ou talvez, nossa) fez com que ano, após ano criássemos uma distância astronômica entre nós.
Eis que um dia, porém, o contato é refeito, as novidades compartilhadas, os sonhos ditos e muita, muita coisa ficara incompreendida, posta no ar. Sutilezas de vírgulas, reticências vãs que por si só já diziam muito. De nós. Dois opostos de uma infância em comum. Duas faces avessas do mesmo vestido dourado. São peculiaridades fatais que abrem abismos entre eu e você. E o presente pode construir uma ponte gigante. Pode unir-nos pra sempre, talvez. O fato de pensar assim não me mata, não me dói. Não por acaso muitos poetas e cantores já diziam: um nó na garganta e um aperto no peito. Os pensamentos invadem, não pedem mais licença, estão loucos, desvairados. A angústia profunda das recordações em cores reprisa diariamente o mesmo filme. Próximo do fim tudo desbota e volto para a minha realidade em branco e preto. Invadida pelas emoções antes contidas, desespero-me para escrever todos esses incômodos - que me assaltaram nos elevadores, becos e curvas. Que tomaram meu prazer pelas pequenas coisas. E fizera de mim uma pedinte, carente e solitária.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Ponte aérea


"Mas não, mas não. O sonho é meu e eu sonho que deve ter alamedas verdes a cidade dos meus amores"

Enriquez/ Bardotti /Chico Buarque



Mas é que eu moro aqui e não lá. Nunca pedi licença do trabalho e embarquei de vez. A viagem poderia não compensar, e eu moro aqui e não lá. Arriscar poderia ser um tiro no pé ou um acerto no coração. Sem volta, sem passagem. Fico aqui, porque lá a cidade é cinzenta e fala alto. Aqui as montanhas me protegem do caos, da poluição e dos meninos maus. Lá tudo seria um risco, inclusive nós. Reviver infâncias, rever fotografias são para os saudosistas e não para nós. Temos planos e planos. Cada um em sua cidade ideal, tentando fazer sua glória, seu caminho. Mas eu moro aqui, onde o trem passa e eu não vejo, onde o pão-de-queijo é só de padaria, onde não tem desconfiança que não seja nata e não há insegurança que não seja plena. No seu mundo metrópole, cada cara no mano a mano faz um trampo pra viver. E uma distância de tempos, destinos e vidas faz com que eu more aqui e não lá.